quinta-feira, dezembro 14, 2006

Levo a memória comigo para que nao esqueça;
Os momentos incertos da saudade;
Carrego pedaços de fantasmas daqueles biombos do quarto soprado
[sem cortinas para que nao me esconda];
Livros desfolhados, esquecidos no tempo.
Folheados pelos dedos amargos desse copo vazio;
Levo comigo as sensaçoes abstractas;
O meu mundo cheio, sem porta para entrar.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Sardo Pasmo


foto.grafia e texto de vnrodrigues

Estou agachado ao chão [e é lá que ouço as luzes dadas da cidade ruidosa]
No torresmo de terra batida – no aflito conforto do ponto de urze;
No espelho inquieto que se compraz com a pedra degradada;
E a esdrúxula memória da espera saliente.
Varrem jograis no marulhar citadino;
Semáforos que grunhem ao silêncio;
E raspam perecíveis úlceras à esquizofrenia dos dedos que cravam o ar;
É espera casta das memórias adormecidas;
O prazer dado, raspado da língua galgada pelo amargo;
Em doce trago depois [como esse, do mel jorrado em torrão]!
E lá, migalhas caídas no colo da velha que doba as linhas
[porque o pano retalhado desfiou - no chão onde chaparros desfloram amendoeiras enganadas].
E lá, alguidares perdidos no gasto galho seco gelado;
De neve imberbe, camareiro;
Olhos vendados; cheiros ríspidos;
Desertos vastos de xailes que não chegam a afagar-te.
Vagabundos mundos!
Riscas listradas de saliência tardia.
E o sardo pasmo das bocas amolecidas de bagaço;
Hálito telúrico, onde jazem incertos peregrinos de poeira sem rasto;
Pó (como um copo estilhaçado que volta a sê-lo). E pode, porém!
Sardos pasmos mais uma vez. Do rasgo sadio. Desmazelado entre miasmas secretos. Como bastasse.
Folhas secas que rangem ao chão. Em úlceras viscerais estremecidas,
Em orgástico sentido. Lá, onde as mulheres parem retrógadas ilusões.
Ásperas confissões do mundo por ver.
Sardos pasmos assim lépidos, mofados de maduros caroços comidos [trincados com gasta sensação, em espera demorada pela saliva de relevo].
Agora penetra. Esquece trémulas canduras deificadas, como a língua que roça o luar,
Sem poder deixar de fazê-lo.

terça-feira, novembro 21, 2006


Não se sabe por onde se escondem os segredos de Koop; ou porque fica frio no silêncio, onde se sentam. A verdade fica sempre lá, serenada na melodia. Ou no baixo subtil; esquecido num qualquer som de gaivotas. Se é swing? Escondido! Um jazz sentado à beira-mar. Bem vincado num barco que junta a ténue cadência do saxofone, traída por uma trompete; e depois silenciado por uma primavera precoce do xilofone que procura por si e depois olha para trás sem ver. É que não tem nada a perder, mesmo!Bateria ligeira; sons de baques, em mistura com aquele sedutor jazz solitário.

Koop Islands

Released: 2006-10-04

Record number: GRÅ C-6

Label: Superstudio

terça-feira, novembro 14, 2006

segunda-feira, novembro 06, 2006

Estou lá, naquele silêncio arrebatado; dos limites do limbo e dos rasgos das intolerâncias. Na turbulenta escassez de sentimentos e no pousio sereno daquele peito de abrigo. Estou lá, certamente, nas palavras escondidas; nos suspiros abafados; nos carinhos escorregadios de terra húmida, lamacenta e crivada nos passos ruidosos. Estarei lá, por certo, na inconsolável elasticidade da luz turva; sem serenidade ou coragem de perguntar; exigir o forte apelo do limite, onde por vezes descansa a lua; a noite ou a negritude da paz. VR

quarta-feira, outubro 25, 2006

(imagem original invertida)

Reparem! a ponta daquele dedo está inerte. Suspenso. A janela chia – as dobradiças pendem! Podia chover. Nevar. Ou aquele vento podia ranger os dentes de apressado, revolto [ou assobiar por entre as árvores despidas e já despojadas de outra sensualidade]. Duas da manhã [ou da tarde em qualquer parte do mundo]. O céu move-se. O tempo deleita-se com as névoas do suspiro. Podia chover sim! E soar nos ouvidos o gotejante líquido que toca as frinchas [e escorregar depois, com breve esfregar na madeira; ou aço; ou ferro; ou parede fingida de ternas (seriam?) madrugadas, agora escorreitas na manhã de Inverno – ou noite; quase a roçar o dia. Quase tudo! Ou tarde malograda, com odor a Outono, ou Verão; ou Inverno tardio que se demora nos poros da respiração [ofegante da intuição!]. E que depois se enterra nas entranhas das mãos agarradas ao, ainda, ar saturado do tilintar das vozes urbanas [e porque não poderiam ser outras; casual?]. Estridentes, meu amigo! Sonantes nos baús da farinha daquela casa.
Agora a Maria chora. Veste a camisola mal passada. Gruda-se nela, como a extensão daquela casa velha, abandonada - mais uma vez - onde a lareira sussurra as achas mal ardidas, como as palavras mal ditas [ se é que o que é dito, escrito falado, pode ser mudado – e magoam assim]. Está encorrilhada – aquela camisola cinzenta, parda- que não entende o que ouviu.
Podia ser que chovesse. E o céu lavasse aquelas vidraças plastificadas de lamentos do avô [que sempre os fez com o jeito do silêncio paternal, na quietude das ausências da casa]. Se chovesse podia ser que o tempo voltasse. Secasse as mãos enrugadas de alegria de terra revolvida – quente, saboreada de prazeres infinitos, inundada de folhas secas, estaladiças, sonoras, calmantes! [E mãos que rasgaram a terra, sulcando [violento] o ventre das raízes, salgando de tempo a poeira das ervas daninhas; e do prazer descompassado de cheiros de terra, humanos]. Suor salgado, amansado pela justeza da maturidade daquela candeia acessa ao fim do dia. Ele não se quebrou. A Maria já não chora. Cerziu a mágoa. Teceu um dia de cada vez naquele forno de promessas calejadas.

segunda-feira, outubro 23, 2006

sexta-feira, outubro 20, 2006

quinta-feira, outubro 19, 2006

Memória I


Os velhos gumes daquela casa abandonada
As verdes latrinas; lamacentas, fendidas ;
A salamandra oxidada
[e silenciada dos segredos corriqueiros; profundos depois]
como uma vela ardida até ao fim;
O suor da cera enrugada – parida mulher!
Como os dedos da velha enganada
[a traição aguça a agrura da pele]
E os pérfidos dedos com calos –
Do cerzir da agulha sob a palha fina da tua vida;
Ainda resta lá a cadeira partida;
Guardiã da luxúria derretida
Elouquecida pelos gemidos encobertos da palma da mão;
Ou o silêncio arcaico da nudez – novamente!
[Como se o nu fosse silencioso –
gritante na expressão e rasgado
No olhar de ver as formas fugidias da luz baixa- amarelada
E tragada como se nada fosse a primeira vez].
Não o era – pelo menos noutra vida
E a velha/outrora nova –
Disse-lhe com prazer que ainda sentia
As folhas secas que roçam
O Inverno daquele sol escondido pelas ventanas
De madeira rangente;
Deixa sair esta noite,
A manhã submersa que te cegou;
O desejo recalcado que enterraste;
Na mais leda raiz da madrugada.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Esquecimentos Vorazes

Mescla de som em embalos caboclos – raros!
Rastos de memória, em compassos nocturnos;
Podridão! Miséria serena!
Estrupos retalhados naquela praça castrada!
Esquecimento [e porque são eles que passam]
Não o tempo!
Negócio degradado!
Gramas corrompidas das vidas desregradas!
(o que é a regra ? – o sulco da ética e da linha imposta?)
Mergulhos sábios – e porque queda o sangue-
Espera!
Corta o sino que badala agora- Estridente!
Enche – sorve o copo vazio na liquidez severa!
É cru!
Nu e parco – exímio depois!
Esteiras – ladeiras históricas;
Sofrimentos entrópicos –
Abafados por ali;
Na cegueira da terra.
Na fotossíntese da renovação orgânica – hipérbole de vida?
Imperial – egoísta agora -
E indiferente!
É como se nunca mais me visse -
Um reflexo passageiro –
Castrado de perenidade – em guerra interior!
Conflito profundo – gestante de trópico exótico.
Em viver – queda ceremonial
Esquece-se a celebração da vida.
E como poderia?


Por VR

quarta-feira, outubro 11, 2006

Simples

© Vanessa Rodrigues

terça-feira, outubro 10, 2006

terça-feira, outubro 03, 2006

© Vanessa Rodrigues
O corrupio já quase não se ouve
A azáfama já não estremece
Já não melindra os passos apressados;
O burburinho já se percebe longe,
Na encosta daquela luz tímida que o silêncio absorve
Tão serena.
Quietude malandra. Adocicada e ébria.
Enternecida pelas causas comuns;
Ou os gestos palacianos da sagacidade ruim;
Do violento sopro da luxúria;
Dos gestos rebuscados;
Das expressões sedentas de lugares sem tema;
Balelas contorcidas;
Esquecidas em mentiras ternas;
Como a voz do vento fingido
Que me roça o cabelo e a calma.
Já soprei. Já embalei o sono da fome;
A justeza das palavras que ficam cá dentro e não saem
Para te abraçar, sem sorver o sonho
Apenas o instante do lance.
Aguerrdido. Estendido na fina memória .


Por VR

sexta-feira, setembro 15, 2006

© Vanessa Rodrigues

quinta-feira, agosto 31, 2006

Experimental

© Vanessa Rodrigues

Exposição, IAB

Sé, cores, rostos, calçadas cinzentas, sorrisos e sombras urbanas. Resultado? Exposição sobre o centro de São Paulo. Mais: convido-vos para a inauguração da minha primeira exposição colectiva fotográfica (cinco autores), a inaugurar no próximo dia 11 de setembro (até dia 25), no Instituto dos Arquitetos do Brasil. A abertura da expo (às 18h) conta com uma mesa redonda sobre "Fotografia, Arquitectura e Paisagem" com o fotógrafo Cristiano Mascaro, entre outros (ver informação adicional). Nesse dia, a galeria estará aberta, até mais tarde.


Divulguem!


Participantes: Ana Cecília, Fábio Mattos, Regina, Alessandra, Vanessa


Workshop fotográfico da Viva o Centro vira exposição no IAB

Fabio Mattos

Participantes do workshop “Passeio fotográfico pelo Centro” em junho. 15 fotos vão para exposição no IAB Como resultado do workshop "Passeio Fotográfico pelo Centro" realizado no final de junho, a Associação Viva o Centro e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) realizam exposição com as melhores fotos da caminhada. A mostra abre na próxima segunda-feira (11/9), às 18h, na sede do IAB, com a mesa redonda "Fotografia, Arquitetura e Paisagem. Um percurso pelo Centro de São Paulo".


Onde:
Instituto de Arquitetos do Brasil
Rua Bento Freitas, 306, 4o. andar 01220-000 - São Paulo - SP (11) 3259-6866 (República) http://www.apontador.com.br/bussola/mapaj.php?flag=1
© Vanessa Rodrigues

terça-feira, agosto 29, 2006

© Vanessa Rodrigues

segunda-feira, agosto 28, 2006

© Vanessa Rodrigues
-Segundos apagados de um copo sozinho;
Traços calejados por um gesto cerzido
[de estranhas memórias, castradas de tempo;
e volveres de prazer sensível – talvez demasiado]
como o seu;
o tardio relento do círculo da lua;
saliva doce; amargada depois;
cinzel que molda o corpo violento;
e as tradições sobranceiras [da inveja; da mágoa
e incerteza voraz que hesita];
Seria o bafo de insónia – delicioso assim mesmo!
Seria o espelho baço de humidade de corpos?
Ou assim incenso generoso que se rasga;
[usado pelo ar oxigenado de saliências silenciosas];
nessa calma que adora;
em linguagem sensível de abecedário por cunhar;
no sorriso pessoal, satisfeito por ninguém entender
[ou sequer perguntar];
sim a estranheza; tal como se é!
o cinismo que percorre aquela casa vazia
[a de que falei];
as velas saturadas que ardem até ao fim
[como o livro daquela conversa de amigos];
e o dia estende-se às horas perdidas [inacreditáveis depois];
as horas que passaram por extensão das texturas por sentir;
a saudade e a a falta agora do olhar sussurrado;
e que supor um ensaio seria inusitado;
enche-me assim esse copo vazio;
sem segundos modestos ou apagados vizinhos;
descansa de uma vez no braço selado;
e pede-lhe de novo aquele abraço prolongado.


Por VR

sexta-feira, agosto 18, 2006

quinta-feira, agosto 17, 2006

© Vanessa Rodrigues

sexta-feira, julho 21, 2006

© Vanessa Rodrigues
Aquele respirar ofegante era de dúvida?
Constrangimento convalescido!
De pensamento inebriado de indecisão e postura indelicada por nada.
Talvez aquilo? O olhar no escuro?
Ou outro tempo?
Aquele que sorria mais estreito,
Eufórico! Impressão?
O respirar suspirado parecia chorar. Não!
Tombava inquieto. Pueril! Habituado! Súbito! Normal!
E em que deslizaste? O que te fez hesitar?
Foi o constrangimento seduzido,
Recatado, assim daquela forma discreta e neutra. Rude!
Nada! Esquece!
Como o rosto passadiço da rua, que nem vês por vezes!
Não sei! E porque não perguntaste?
De indiferença.
Palavras cortadas. Nas entrelinhas, que não entendo.
Pela distância. Proximidade simultânea. Erro!
Via de dúvida desvanecida naquele tempo.
O que virá! Pela partida!
Porque já não restará dúvida. Então!

terça-feira, julho 18, 2006


Sob as águas malhadas do lago do nevoeiro, dança a poalha turva, sonâmbula e mal dormida.
Em breves ruídos estremunhados, ela sonha com as delícias de Inverno que competem com as cores quentes desse Outono sedutor. Ela sabe que é mais solta no Estio. Mais doce com as folhas secas. Mais genuína com os cheiros adocidados dos bafos quentes do arvoredo. E da humidade da terra.
A água, agora matizada com os reflexos circundantes das nuvens, (das árvores, das flores adormecidas, dos barcos, dos cisnes, dos patos, dos pássaros), revolve-se enrugada pelo vento célere que a inqueta. E pensa, saudoso, nas páginas de tempo que já rasgou. Nas rugas pardas que cravou no ar. E nos suspiros inquietos que deu sem pensar!

sexta-feira, julho 07, 2006

Depois da morrinha impertinente, que entranha a respiração silenciosa do vento, o sol abriu a janela e espreguiçou-se sobre a cidade. Disse bom dia; e talvez eu não tenha ouvido, porque, a essa hora, já estava escondida sob a luz artificial dos barulhos urbanos. Sob o fervilhar inquieto da cegueira frenética que apaga as sensibilidades e as intuições silenciosas.

terça-feira, junho 27, 2006

© Vanessa Rodrigues



segunda-feira, junho 26, 2006

Sentir Urbano

Hoje, quero adormecer na calma desta cidade. Mergulhar, aos poucos, nos recantos de cultura. Nos suspiros dos reflexos urbanos, sobressaídos pela cor dos néons esfumados nos meus olhos. Quero sentar-me na poltrona negra do café antigo. Justificar os meus pensamentos com traços de História que respira. Observar o casal do lado que ainda agora começou a descobrir-se. Em meias palavras e pequenos gestos de cumplicidade. Quero pensar na calma da imagem que vejo. No sabor amargo da café que tomo. Hoje, quero deixar-me levar pelo sol que se espraia sobre a janela suja do autocarro. Olhar a cidade calma, por momentos, antes que volte a perder este sentir humano.

quinta-feira, junho 22, 2006

© Vanessa Rodrigues

Ouvi o portão de minha casa a bater. A milhares de quilómetros de distância. Ouvi aquela hesitação do ferro no chão, antes de encerrar. Ouvi aquele roçar trémulo da fechadura a tocar a presilha. E pensei que eras tu. Pensei que me visitavas. Que entravas para a hora tardia do café. Ou do vinho. Ou do cigarro fraco, mal sorvido e com cheiro a caramelo. Baunilha? Por instantes pensei que entravas no pátio familiar. Por momentos entendi que ias abrir a porta de madeira, mais sonante que o portão. Ou já arranjaram, lá em casa, o tremor empenado daquela porta robusta e irritante ao fechar? Aquela que arranha o chão e deixa marcas cunhadas com o percurso da abertura? É que por segundos sonhei que batias com aquela entrada habitual. E que depois da longa caminhada, me envolvias como sempre.

segunda-feira, junho 19, 2006

O Silêncio Nómada

Fechou os olhos ao som de uma cachoeira lendária. Fios de luz interferiam com os de água. As gotas corriam deslizantes pelo dorso de luminância. E imaginou os sons que aquelas cascatas de água concorrente faziam no silêncio do pensamento. (Ou do murmúrio do nada real). Assim, quis percebê-la em dois tempos. Em dois universos sonoros que se tocam mas não são iguais. Como se o hiato entre o mundo vivido, fosse ainda maior que o mundo pensado, cadenciado pela sonoridade que soa cá dentro. Tentou adivinhar, perceber, interpretar os diversos ruídos que se sobrepunham em simultâneo e diferenciados. O reflexo da água não o fez dispersar. E, no silêncio do pensamento, disse ouvir dezenas de ruídos escondidos que se estendiam ao longe, levados pelo fluxo daquela água.

sexta-feira, junho 09, 2006

terça-feira, junho 06, 2006

Espião do Reino

Zufiro é espião ao serviço do reino lusitano. Anota coordenadas geográficas das frotas portuguesas para as passar à monarquia vizinha. Rouba documentos cartográficos. Plagia textos, desenhos e anotações de rumo. Esboços de lemes. Movimento de ventos. Descobriu que o norte geográfico não é o mesmo do norte daquela tecnologia de ponta: a bússola aponta o norte magnético. Segredo guardado. Que vai passar para os ouvidos concorrentes. Hoje surripiou uma carta de tipo náutico-geográfico – o Planisfério Cantino. Ele até conhece o cosmógrafo que o desenhou. É companheiro de horas de mar. Ele sabe que o profissional de cosmografia não é subornável. Por isso, embebeda-o para o roubar. Ele sabe que a conquista do Atlântico está próxima. Que o desbravar de mares é o próximo passo. Que a palavra descobrir mudou. Expandiu-se. Projectou-se por ecos marítimos.
Guarda o caderno de elástico gasto no bolso da jaqueta rasgada. Quando o abre, o bafo a sepia sorve o oxigénio de um fôlego. O cheiro é marítimo. Salgado.
Ele, alto, esguio e de traços faciais leves, contempla os espaços siderais como a areia sorve a espuma do mar. Agora de missão cumprida, caminha para a sala como se nada fosse. Na inconfidência do segredo e na serenidade da consciência que dorme sob os espinhos alheios.

segunda-feira, junho 05, 2006

Falei com o dono do quiosque da Praça da República. Perguntei-lhe se encontrou, alguma vez mais, aquela mulher que me contou que amou outrora - aquela que me confessou ser a mulher da vida dele. Ele respondeu-me: "Menti-lhe menina. Afinal descobri que não a amei em tempos. Descobri que ainda a amo. Mas resolvi a questão cá dentro. E pensei que não a quero ver mais. Torna os dias mais leves. E sempre posso ver o pôr-do-sol sem remorsos". Nunca mais o vi. Mas contam que foi feliz até que mudou a morada da vida dele.

sábado, junho 03, 2006

Refúgio


© Vanessa Rodrigues

terça-feira, maio 30, 2006

Em Timor-Leste

Custa-me pensar que tudo possa ter fracassado em Timor-Leste. Que o esforço tenha sido em vão. Que as centenas de vigílias; movimentos de pressão; movimentos políticos, humanitários, culturais; sofrimento; lutas sociais, bélicas; dor e amargura vivenciadas tenham sido um vácuo. Uma fortaleza minada. Uma peleja que rebola sobre o abismo. (Sonho por concretizar!)
Lamento o recrudescimento da violência, da insegurança e da instabilidade. Custa-me crer que a jovem democracia esteja doente. Acreditei muito nesta paz. (Acredito, ainda, apesar de desiludida!) Haverá muitas dívidas a pagar nessa sofreguidão e superficialidade política. Neste jogo de interesses mesquinhos que não entendo e desconheço, em rigor. Amargura-me mais uma vez pensar no inferno de quem nada tem a ver com a crise e mais sofre. Muitas vezes irreversivelmente.

segunda-feira, maio 29, 2006

Não digas Nada

TEATRO (IN)CERTO APRESENTA

"Não digas Nada" de Tiago Torres da Silva

Com:
Maria Teresa
Helder Magalhães

Encenação:
José Matos Silva

Cenografia:
César Filipe Costa

Técnica de luz e som:
Rita Fernandes

Adereços:
Dulce Amieira

8, 9 e 10 de Junho (21h45)

Auditório Horácio Marçal
Junta de Freguesia de Paranhos,
Rua de Álvaro Castelões, 811
Porto, Portugal
Há uma fome insaciável na ansiedade do poder. De que serve a hierarquia imposta? Ou a espontânea? Senão alinhar com o que Darwin dizia. Em nome dos mais fortes. Para que perdurem os mais fracos. Ou a ilusão inconfidente de que são os mais fracos!

quinta-feira, maio 25, 2006

Dúvida

© Vanessa Rodrigues
Sou da neblina que se dissipa, assim
Das manhãs incertas que vagueiam na encosta de luminância
Perdidas e irisadas de ventos vagabundos;
Do sabor silencioso que entra cá dentro;
Do toque diáfano que aconchega a caminhada;
E do tempo?
Do impasse e avanço corrido
Que pára; tropeça; soçobra,
E depois se ergue forte;
Do sorriso emancipado do pensamento;
Da ternura invisível que se deixa tombar;
Do progresso inusitado e estridente que sente ao passar.

quarta-feira, maio 24, 2006

Rosto Invisível

Deita-se na calçada imunda. Deixa a morrinha afagar o rosto seboso e percorrer as frinchas escondidas da barba que esconde a idade. Cobre-se com farrapos de várias cores. Mais negros de sujidade. O chão está escorregadio. O pó desliza, enamorando-se das gotas sensíveis. Ele tosse convulsivamente. Uma, duas e mais vezes. Sucumbido pelo frio de Inverno. Pragueja do tempo. Insulta as pessoas que passam e vivem melhor que ele. Esfrega a bolsa no chão. Acende o cigarro desfeito, em busca de um prazer momentâneo que o faça esquecer a displicência. E a esquálida sordidez do corrupio que desliza aceleradamente por ele.

terça-feira, maio 23, 2006

Divã de Insónia I

Ela caminha naquele canto da lua. Sentada no divã, onde outrora o sol tombou para afagar o pensamento fugidio. Afaga as páginas da história como uma vela duradoura; e que no fim se queda rugosa. Saboreada pela brisa e o pó sedento de oxigénio e repouso. Toca as palavras do livro remoto. Deixa deslizar a macieza das mãos na manta quente. Enrola-se. Aconchega-se a olhar a chuva que desce pelos vidros. Escorre apressada. Em fios encarreirados pelas brechas envidraçadas. Suspira, por vezes, mas logo desce, subtil.
As mãos estão agora enrugadas. O frio passa pelas frinchas das portadas de madeira. Range. Assobia como nos contos de infância. Profere vozes lindas. E a memória surge-lhe como bela. Expressamente bela! Reclina-se na filosofia do sono. Adormece. Enquanto o vento, lá fora, estonteia as árvores outonais e revolve as águas do lago sereno.

Miragem

© Vanessa Rodrigues

terça-feira, maio 09, 2006

Por Vanessa Rodrigues

É quando prefiro o silêncio da música
Que me reclino nas palavras que vadiam cá dentro;
Nas misérias fantasma que me assolam o sentimento;
No calmante trago que o vinho deixa com a saliva.
E o frutado álcool que estonteia e liberta.

É aí que percebo o lirismo do sonho;
A conquista desenfreada que me impele a suportar,
Que me justifica os caminhos como ténues atalhos;
Trilhos com rumo, e desprovido de ilusões.

Danço na pedra vazia, bem longe de todos.
Rio-me da felicidade. Do sentimento bom.
Da vibração incomum da flor da calçada.
Da luz do equinócio que me deixa respirar - finalmente!

E lá que sou feliz.
No mundo saboreado e de texturas diárias.
Onde aprendo sempre, a ver um som.
A imaginar uma cor.

Outra e mais outra!
Talvez sejam muitas. Como as palavras.

É nessa sede de saber.
Nessa consciência incessante de que o ciclo é curto
Na inconfidente pureza. Que sou feliz.

No silêncio da música de quem vê um som.
O percebe. E a ele se estende.

Como essa neblina que me afaga o rosto.
Que me reclina absoluto na poltrona viva da vida.

Nessa tela colorida.
Nesse cenário singular,

Onde pinto a preto e branco as cores de todo o mundo.
As gradações estonteantes das emoções;
escondidas pela expressividade do rosto,
a querença sólida de outra manhã assim.


sexta-feira, maio 05, 2006

Vanessa Rodrigues @ Copyright
Maio de 2006

quinta-feira, maio 04, 2006

Para lá, infinito!

O corrupio já quase não se ouve.
A azáfama já não estremece;
Já não melindra os passos apressados;
O burburinho já se percebe longe,
Na encosta daquela luz tímida que o silêncio absorve
Tão serena.
Quietude malandra. Adocicada e ébria.
Enternecida pelas causas comuns;
Ou os gestos palacianos da sagacidade ruim;
Do violento sopro da luxúria;
Dos gestos rebuscados;
Das expressões sedentas de lugares sem tema;
Balelas contorcidas;
Esquecidas em mentiras ternas;
Como a voz do vento fingido
Que me roça o cabelo e a calma.
Já soprei. Já embalei o sono da fome;
A justeza das palavras que ficam cá dentro e não saem
Para te abraçar, sem sorver o sonho
Apenas o instante do lance.
Aguerrido.
Estendido na fina memória .

Utopias I





Por Vanessa Rodrigues @ Copyright
Brasília, Maio de 2006

segunda-feira, abril 17, 2006

Lá no alto, a nuvem começou a enegrecer. Bufou o vento que a inquietava e escondeu-se na densa neblina que se fechava. As gotas quiseram entrar nesse manto carregado. Envolver-se no mosaico cinzento que, sorrateiramente, penetrava o ar dissipado.
Cá em baixo, um chuveiro constante inundava já o alcatrão. E molhava os pés que pisavam o chão. Os carros que passavam, impiedosamente, sob a estrada vazia chapinavam as poças na berma, bem junto ao passeio. Ela ficou molhada. A lama escorregava pela perna morena. Mais à frente, ele sacudiu o casaco encharcado. O cinzento do pano virou preto. Ficou pesado. Ele não olhou para trás para vê-la. Ela nem reparou que ele também estava alagado. E estavam apenas três segundos de distância.

quarta-feira, abril 12, 2006

Llorca/Nicole Graham

Llorca/Nicole Graham, "New Comer", 2001
Um Electro-Jazz que vale a pena!

Mãos Silenciosas

Sabes que as rugas das mãos são o silencioso toque da memória,
Que aquecem o esquecimento do passado.
E que o sobreposto relevo dos traços
São os caminhos esquecidos
Das linhas tortas –
Tracejadas por amargas cúpulas de pétalas - e
Folhas rugosas.
Verdes e envelhecidas,
Como o grisalho do teu cabelo vivido;
E a robustez silenciosa,
Escondida na grandeza do teu sentir;
E a sensibilidade do teu pensar.
Do teu querer.
Do teu silencioso e terno olhar,
Antes de adormecer a saudade;
E o abraço esperado, ansiando recompensa paternal
Desprendida.
Liberta e um pouco embevecida.
Inquieta de novas para criar outras raízes perdidas,
Soltas para outras sementes.
Ansiante de as lançar,
Despojadas, sofridas,
Mas mesmo assim despojadas de amarras;
Presas apenas pelo sentimento indeclinável
De me querer amar.

(Poema feito para o meu pai, dia 3 de Abril)

quinta-feira, abril 06, 2006

É difícil dizer que o mundo é bonito
Que o mais que perfeito é possível. E existe.
É difícil dizer que o mundo é verdadeiro.
E que esse mundo interior.
Aquele pequeno que nos move, é direito.
É mais fácil dizer que os pequenos silêncios são perfeitos.

quarta-feira, abril 05, 2006

Vulgaridades

De ar esbugalhado, roupas decadentes, cheiro azedo e rosto enegrecido do ar saturado, ele passa, todos os dias, no meu caminho. (Pretensiosismo meu. Ainda agora cheguei. Talvez seja eu quem passe no dele. E ele já lá estava). As mãos parecem velhos trapos desfiados, com relevos cunhados por um tempo prematuro que passou antes de dever. Luas demasiado contempladas. Estrelas demasiado gastas pelo olhar, com o céu como tecto. Pequenas lâmpadas acesas que só se apagam com a cortina de luz que sobe, em passos lentos, com um olhar solar. Sempre que passa, pelos passeios imundos, de cor ferrugem e oleados pela sujidade, fala em voz alta, palavras fechadas. De desentendimento. Desabafos de um mundo próprio. Que ninguém inveja. Degradante. Triste. Revoltante, também. Mas estupidamente urbano e que fazem do dia-a-dia uma parvoíce de vergonha, mutilada pela vaidade. Quem passa tem medo. Receio de imundice. Ataque súbito, calejado de provocação. Não se sabe o que ele diz. Nem quem é. Mas apenas que passa ali, todos os dias de manhã, tal como qualquer um de nós, rumo ao trabalho. Rumo ao trajecto de um dia imposto. Talvez vergonha dele seja o sentimento. Misto de culpa e de nada.

terça-feira, abril 04, 2006

As motivações da alma

Jair gosta de showfight. Erineu gosta de Machado de Assis. À noite, Jair sai para a discoteca, enquanto que Erineu fica, ao som de Lugansky, a ler uma crónica de Zuenir Ventura.

quinta-feira, março 30, 2006

-A Igreja do Diabo-

Machado de Assis conta, que certo dia, o Diabo, frustrado com séculos de desorganização, ausência de regras, cânones e rituais - embora os lucros fizessem roer de inveja as mais cotadas multinacionais - resolveu fundar uma igreja. Assis, que na altura terá interrogado o Diabo, cita os preceitos da criatura (que neste contexto, note-se, não tem na adjectivação atribuída, um olhar depreciativo, mas assume, pelo contrário, condição privilegiada): "Enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo".
Depois de longa e propalada campanha de marketing para angariação de novos fiéis o Diabo viveu anos de "aparente" sucesso e regozigo com a nova manada de seguidores. Mas um dia, por acaso do decorrer da linha do dia, o Diabo descobriu que muitos dos fiéis professavam outras fés, rituais e orações às escondidas. Pasmado. Regressou ao céu a desafiar o deus do bem e exigir explicações. Esse, ciente e vacinado das contradições humanas, falou-lhe dos paradoxos inexplicáveis que regem os pensamentos. Desolado e enraivecido, o Diabo, decidiu embarcar numa longa viagem. E deixar à mercê a igreja fundada para procurar um especialista em frustrações da raiva. Após anos de busca, nada encontrou a não ser enganadores que ele bem conhecia. Mais tarde, decidido a recuperar do trauma, procurou um psicanalista que lhe disse que não há cura para entender as incoerências da humanidade. Mas se um dia algo próximo fosse descoberto, ele, o Diabo, ficaria desempregado eternamente. Frustrado, mas ao mesmo tempo aliviado, o Diabo entregou-se às terapias zen e uns preparados alucinogénios. E depois, esquecido dos traumas da incoerência voltou aos cabarets carnais e às ruas da amargura, para se recuperar para os anos de incongruência a que ficou assolapado para sempre.
Texto baseado no conto de Machado de Assis, A Igreja do Diabo (Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II)

quarta-feira, março 29, 2006

"O som dos sapatos" (João Afonso)

Penso em ti a noite inteira
numa insónia não vencida
seguir sozinho uma ideia
os lugares da tua vida

Na penumbra a luz dum verso
que deixou de ter sentido
dominó, enciclopédia
horas de um tempo perdido

A tua mão a passear
tomba o aparo, gesto de espera
ventos de guerra,
dado a rolar ecos dispersos ,"Rosas de Ermera"

O homem que passa subiu a montanha
caminha sem pressa, sem santo nem senha
o som dos sapatos, a linha da vida
a cor do tinteiro, derrama a saída

A noite já desceu à terra
no seu ventre se enrolou
pousou na melancolia
de um dia que já passou

Já te disse o que não digo
numa verdade mentira
há um som breve que vive
numa palavra que gira

Composição: João Afonso Lima
(http://joao-afonso.letras.terra.com.br/letras/490603/)

Dias de Chuva

Ao fundo, um cenário de chuva alaga a rua. Os carros passam em ziguezague e chapinam uma poça imunda. Derrapam.
A mulher do passeio. De guarda-chuva erguido. Mala ao ombro e saco de lanche na mão esquerda não repara. Fica encharcada. De lama viscosa. Água choca. Os olhos estão tristes. O rosto nublado. A alma furiosa. As rugas mais vincadas. O lanche não sobrevive. O saco encharcado molha o que está por dentro. Mas ela sabe que sonho continua limpo.

sexta-feira, março 24, 2006

"Na Inglaterra, hábito é de não trocar cueca" (quê?)

Segundo uma nota do Estado de São Paulo de hoje, um em cada dez ingleses usa a mesma roupa interior durante três dias seguidos. O resultado foi apurado por uma professora de marketing de moda da Manchester Metropolitan University. Mais: 5% da população admite que veste as cuecas do avesso, para que sejam usadas mais um dia. Mas há variações regionais, por exemplo 34% das pessoas em West Midlands (região centro-oeste da Inglaterra) passam perfume na roupa interior para que cheirem melhor. Já estou a ver as vendas das lojas de lingerie a entrar em crise. Ou pior: e se o hábito vira moda na Europa?

quinta-feira, março 23, 2006

A cidade em progresso

A cidade mudou.
Partiu para o futuro
Entre semoventes abstratos
Transpondo na manhã o imarcescível muro
Da manhã na asa dos DC-4s

Comeu colinas, comeu templos, comeu mar
Fez-se empreiteira de pombais
De onde se vêem partir e para onde se vêem voltar
Pombas paraestatais.

Alargou os quadris na gravidez urbana
Teve desejos de cúmulos
Viu se povoarem seus latifúndios em Copacabana
De casa, e logo além, de túmulos.

E sorriu, apesar da arquitetura teutaD
o bélico Ministério
Como quem diz: Eu só sou a hermeneuta
Dos códices do mistério...

E com uma indignação quem sabe prematura
Fez erigir do chão
Os ritmos da superestrutura
De Lúcio, Niemeyer e Leão.

E estendeu ao sol as longas panturrilhas
De entontecente cor
Vendo o vento eriçar a epiderme das ilhas
Filhas do Governador.

Não cresceu? Cresceu muito! Em grandeza e miséria
Em graça e disenteria
Deu franquia especial à doença venérea
E à alta quinquilharia.

Tornou-se grande, sórdida, ó cidade
Do meu amor maior!
Deixa-me amar-te assim, na claridade
Vibrante de calor!

Vinicius de Moraes

quarta-feira, março 22, 2006

Há qualquer coisa que entranha, assim, o sentimento.
Um sopro revolto de nuvens carregadas de branco silencioso.
Será que ainda virás?

terça-feira, março 21, 2006

-Biscates I-

Ericeu é professor. Mas só em tempo parcial. Pergunta-me se Camões é venerado pelos portugueses. Questiona-me se Fernando Pessoa é um nome conhecido em Portugal. Se é estudado. Se as pessoas o conhecem. "É que na minha terra todos os conhecem. Na minha terra são os expoentes da Literatura Portuguesa. Na minha terra é Literatura obrigatória. Na minha terra ninguém sabe muito de autores brasileiros".
Ericeu licenciou-se em Literatura Luso-Brasileira e Anglo-Saxónica. Mas Ericeu quis tirar outro curso. Estuda Direito. Dar aulas tirava-lhe muito tempo para estudar. E ele queria tanto continuar a estudar. Ericeu faz, por isso, biscate. Dirige táxi. Tira mais ao fim do mês, como afirma. Tem mais tempo para estudar. E dá aulas em tempo parcial. "Mas não compensa", justifica. "Quem sabe no próximo ano vou a Portugal"", diz. "Mas só se continuar no negócio do táxi. A leccionar não dá nem para ter carro".

sexta-feira, março 10, 2006

Se o pensamento falasse, diria que o paraíso está aqui, frente aos olhos. Se o pensamento falasse, diria que a distância amacia a monotonia e traz à lógica, um amargo sabor de exclusão.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

"Ei, me deixa matar ele. Também sou bandido, cara!"
Cidade dos Homens, Volume 2, por Fernando Meirelles.

Até aqui nada de especial. Não fosse a deixa proferida por um puto de 10 anos. Mas, também, até aqui tudo normal, parece!

domingo, fevereiro 19, 2006

Passam cigarras, no caminho aflitivo de terra vermelha que ele esqueceu.
Passam fios de luz nas portas velhas do casarão altivo, que lá longe o pó corrói.
Rompem-se as correntes do portão estanhado.
Estilhaçam-se os vidros frágeis com o roçar do vento nas frinchas debilitadas.
Quebra-se o brasão. Ardem as folhas. Secam as árvores.
Resta-lhe o jardim sombrio; assombrado pela memória do sonho que perdeu.


sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A longevidade da Justiça

Joaquín da Silva, 532 anos.
Manuel Fonseca, 123 anos.
João Almeida, 632 anos.
Marília José, 345 anos.
Ana Pais, 123 anos.
Frequentemente vejo nas notícias (sobretudo brasileiras) as sentenças atribuídas. Com centenas de anos a reboque. Este acumular de anos de condenação faz aumentar o tempo de cativeiro.
Será que o cárcere é o elixir da imortalidade?

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Deixo em teus braços doces sabores que os odores transpuseram.
Deixo em teu abraço a lenta ternura que o calor soprou.
E ao badalar da aurora deixo o suspiro suspenso até que volte.
Na margem do rio estagna a pedra aflita.
Na corrente apressam-se gotas ansiosas de transbordar no mar.
Já avistam a foz. Não sabem se lá vão chegar. Até podem com isso sonhar.
Mas no regaço leva o rio, centenas de lágrimas saradas.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Perdas materiais!

Perdi um saco na Fnac. Ou terá sido noutra loja qualquer. Não sei! Apenas sei que não fiquei preocupada. Coisas banais. Uma mochila e uma camisola! Sim, gastei dinheiro. Não voltarei a comprá-las. Não vou gastar mais dinheiro. Fazem-me falta. Mas remedeio-me com outras coisas. E depois? Não fiquei preocupada. Rio-me perante a minha distracção para as coisas materiais. Para umas pechinchas que não recupero. E depois? Sei que me ri. "Oh, perdi um saco na Fnac (ou noutra loja qualquer, não sei ao certo)"!. Amanhã irei perguntar. Com calma. Se as não recuperar, não sei. Apenas esquecerei. Deixa lá. "Perdi"- direi. Está bem assim. Gosto assim e não faz mal. Deixa lá. Já passa!

domingo, fevereiro 12, 2006

Hoje acordei com a sensação de sono rápido. Dormi depressa. Sonhei célere. Passei o sonho (sim o sonho) em claro, apesar de os olhos terem caído em cerramento soporífero. Pensei num alinhamento sem sentido. E o claro do dia já me despertava os olhos. Reclamo o direito de não ter de dormir. Porque não me inventaste para não ter de adormecer?

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Eu que só queria o silêncio, Trovador!.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A imagem do Garcia

O Garcia ainda não percebeu os lados do espelho. As imagens reflectidas. Os meandros silenciosos que se quedam na sombra. Os contornos do seu rosto. Ainda não percebeu se é luz ou harmonia. Se violência ou calma as rugas que lhe correm pela face. Ele ainda não sabe. Ainda não descobriu a pura magia. A verdade escondida que lhe quebra o olhar. (Se se detém em pertinência. Ou esquece). O Garcia não sabe se é ele reflectido. Ou outro. Não se reconhece. Não se revê na luminância espaçada. No baço de um vidro fingido e que a ele não reflecte. O Garcia não entende. Ele queria ser outro no espelho. Queria ser a imagem que tem dele e não o rosto que aquele esgaçar de fragmentos na chapa de cristal estanhada espelha. O Garcia não gosta de espelhos, está visto. Não gosta da simetria dissimuladora. Dos pormenores da fealdade. Do ideal vazio que um objecto como aquele delata. O Garcia acha os espelhos fingidos. Injustos expositores que perscrutam a alma sem luta.

Crónica de um mal-entendido

Disseste que sim e eu expliquei. Anuiste e eu reflecti. Deste a entender que três e quatro são sete e eu suspirei. Riste-te. Estendeste a conversa. Percebeste.Foi o que disseste. E não ia haver problema. Tudo era explícito. Entendível!
"Não há problema. Tudo bem".
E quando assim se fala não há nada por explicar. Não há mais nada a acrescentar. Mas na hora de pôr em prática o entendimento, tropeça-se nas palavras.
E não havia mais nada a explicar. O erro foi de quem explicou e não de quem não percebeu. Fui eu que expliquei. Desfiz o mal-entendido (desfiz?). Mas rompe-se sempre a conversa. Desgasta-se as palavras.
As tentativas de explicação (vezes repetidas). Um meandro de dinheiro. Uma pequena coisa. Um nada sem realce. Mas o desgaste lá ficou. O mal-entendido perdurou. Deixou marcas. Queima a vontade e a legitimidade. Talvez rompa com a ligação. Lá ficou.
Explica-se. Reformula-se a explicação. Tornamo-nos chatos. A pessoa não se lembra. Diz que não foi isso que entendeu. Mas anuiu. Disse que sim. Riu-se. Estendeu a conversa para além do necessário. Isso significou que tudo ficou claro. Mas não.
E porque não falávamos na altura do mesmo? Onde estava o descodificador da compreensão além das palavras? Um erro de entoação? Problema com a justeza das palavras. Do certo e do incerto? De tudo e de nada? De mim e de ti? Do valor de um mal-entendido? Do peso de um tropeção?

sábado, fevereiro 04, 2006


Outubro, 2005 - Copenhaga (Dinamarca)

Por Vanessa Rodrigues

Pela continuidade do dia

Não quero que a madrugada me roube o pensamento mais uma vez. Mas é quando o dia se esvazia que as ideias começam a fazer sentido. É no manto negro e no silêncio lá fora que tudo faz mais sentido. Se mais lúcida? Não é verdade. Talvez mais sedenta de vida.
Para quê esperar que a escuridão adormeça. Passe. Porque não a continuidade do dia?

domingo, janeiro 29, 2006

Pode ser um pedaço de mim a janela que range;
Ou um fragmento da voz o crepitar da fogueira cá dentro.
Pode ser um assobio do pensamento o vento que voa;
Ou o abraço esquecido que a minha alma adormece.

sábado, janeiro 28, 2006

Corre em blues uma nota de Jazz. Lenta, suave, crispante e
negra. Viaja na memória ao soar o piano. Entranha-se no pensamento ao sopro
da
trompete. Jaz lindamente no meu corpo e deixa-se por lá ficar.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

[-Uma fenda nas horas rendidas-]

Esta noite deixei o silêncio lá fora para te escrever. Sussurrei ao ouvido do tempo que vi a terra molhada pela neblina e uma fenda na porta das horas. Esperei! Ainda pensei que a tinta corresse, mas o branco da folha causou-me arrepios - calafrios inexplicáveis. A boca secou. O espaço minguou. A minha mão deixou-se estar presa ao lápis. Apaixonou-se assim e não mais o quis largar. Hoje recusa-se a teclar no virtual. Não a censuro!

terça-feira, janeiro 10, 2006

Pedaços do Tempo

Ocupamos pedaços do tempo a fazer o que mais gostamos. Usamos grande parte dele a fazer o que nos é possível para sobreviver, de resto. Quem disse que a profissão é aquilo que fazemos em tempo completo; restituídos de um bem pecuniário? É esse paradoxo que nos preenche e simultaneamente nos oprime. Mas é ele que me faz feliz.

sábado, janeiro 07, 2006

-A Casa de Garret-

Fica em pó...mais um legado do Romantismo português a favor do pedantismo da economia e das razões da ganância. Não há quem puna esta parvoíce. Porque é que me sinto tão pequena na voz da (suposta democracia) para me insurgir contra isso? Obrigada, Democracia (de elite). Pura ironia!

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Enquanto tudo for e eu não me deixar ir. Enquanto a razão não deixar de existir. Enquanto o mundo não deixar de ser um cenário pintado para que eu acredite. Fecho as mãos ao manifesto, às fábulas contadas; e à evidência encenada. É porque não me rendo!

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Talvez seja o vazio da partida que me faz sentir assim. Ou a falta de dinamismo. "Talvez!". Ou seja da carência do último ano. Do tudo e do nada vivido. Talvez seja da incógnita. Ou de não saber o que escrever, todos os dias, quando na cabeça tenho mil e umas histórias alinhadas, prontas para serem sacudidas para o papel, ou para a tela do computador. É, talvez seja de tudo isso, ou do nada. Talvez seja de mim! E isso, minha gente, nem a tecla apaga.