terça-feira, junho 27, 2006

© Vanessa Rodrigues



segunda-feira, junho 26, 2006

Sentir Urbano

Hoje, quero adormecer na calma desta cidade. Mergulhar, aos poucos, nos recantos de cultura. Nos suspiros dos reflexos urbanos, sobressaídos pela cor dos néons esfumados nos meus olhos. Quero sentar-me na poltrona negra do café antigo. Justificar os meus pensamentos com traços de História que respira. Observar o casal do lado que ainda agora começou a descobrir-se. Em meias palavras e pequenos gestos de cumplicidade. Quero pensar na calma da imagem que vejo. No sabor amargo da café que tomo. Hoje, quero deixar-me levar pelo sol que se espraia sobre a janela suja do autocarro. Olhar a cidade calma, por momentos, antes que volte a perder este sentir humano.

quinta-feira, junho 22, 2006

© Vanessa Rodrigues

Ouvi o portão de minha casa a bater. A milhares de quilómetros de distância. Ouvi aquela hesitação do ferro no chão, antes de encerrar. Ouvi aquele roçar trémulo da fechadura a tocar a presilha. E pensei que eras tu. Pensei que me visitavas. Que entravas para a hora tardia do café. Ou do vinho. Ou do cigarro fraco, mal sorvido e com cheiro a caramelo. Baunilha? Por instantes pensei que entravas no pátio familiar. Por momentos entendi que ias abrir a porta de madeira, mais sonante que o portão. Ou já arranjaram, lá em casa, o tremor empenado daquela porta robusta e irritante ao fechar? Aquela que arranha o chão e deixa marcas cunhadas com o percurso da abertura? É que por segundos sonhei que batias com aquela entrada habitual. E que depois da longa caminhada, me envolvias como sempre.

segunda-feira, junho 19, 2006

O Silêncio Nómada

Fechou os olhos ao som de uma cachoeira lendária. Fios de luz interferiam com os de água. As gotas corriam deslizantes pelo dorso de luminância. E imaginou os sons que aquelas cascatas de água concorrente faziam no silêncio do pensamento. (Ou do murmúrio do nada real). Assim, quis percebê-la em dois tempos. Em dois universos sonoros que se tocam mas não são iguais. Como se o hiato entre o mundo vivido, fosse ainda maior que o mundo pensado, cadenciado pela sonoridade que soa cá dentro. Tentou adivinhar, perceber, interpretar os diversos ruídos que se sobrepunham em simultâneo e diferenciados. O reflexo da água não o fez dispersar. E, no silêncio do pensamento, disse ouvir dezenas de ruídos escondidos que se estendiam ao longe, levados pelo fluxo daquela água.

sexta-feira, junho 09, 2006

terça-feira, junho 06, 2006

Espião do Reino

Zufiro é espião ao serviço do reino lusitano. Anota coordenadas geográficas das frotas portuguesas para as passar à monarquia vizinha. Rouba documentos cartográficos. Plagia textos, desenhos e anotações de rumo. Esboços de lemes. Movimento de ventos. Descobriu que o norte geográfico não é o mesmo do norte daquela tecnologia de ponta: a bússola aponta o norte magnético. Segredo guardado. Que vai passar para os ouvidos concorrentes. Hoje surripiou uma carta de tipo náutico-geográfico – o Planisfério Cantino. Ele até conhece o cosmógrafo que o desenhou. É companheiro de horas de mar. Ele sabe que o profissional de cosmografia não é subornável. Por isso, embebeda-o para o roubar. Ele sabe que a conquista do Atlântico está próxima. Que o desbravar de mares é o próximo passo. Que a palavra descobrir mudou. Expandiu-se. Projectou-se por ecos marítimos.
Guarda o caderno de elástico gasto no bolso da jaqueta rasgada. Quando o abre, o bafo a sepia sorve o oxigénio de um fôlego. O cheiro é marítimo. Salgado.
Ele, alto, esguio e de traços faciais leves, contempla os espaços siderais como a areia sorve a espuma do mar. Agora de missão cumprida, caminha para a sala como se nada fosse. Na inconfidência do segredo e na serenidade da consciência que dorme sob os espinhos alheios.

segunda-feira, junho 05, 2006

Falei com o dono do quiosque da Praça da República. Perguntei-lhe se encontrou, alguma vez mais, aquela mulher que me contou que amou outrora - aquela que me confessou ser a mulher da vida dele. Ele respondeu-me: "Menti-lhe menina. Afinal descobri que não a amei em tempos. Descobri que ainda a amo. Mas resolvi a questão cá dentro. E pensei que não a quero ver mais. Torna os dias mais leves. E sempre posso ver o pôr-do-sol sem remorsos". Nunca mais o vi. Mas contam que foi feliz até que mudou a morada da vida dele.

sábado, junho 03, 2006

Refúgio


© Vanessa Rodrigues