Acordei em território alheio. Não era eu, ou seria? Misturei as pegadas para que não se percebesse, mas nada reconhecia. Nem as folhas misturadas no jardim, nem o verde-forte-entranhado no chão como tapete colado ao taco que outrora a moda escondeu. O céu, as sensações, a pele aguda e as mãos de texturas finas, acabadas de receber o frio que queria dormir gratuito nas reentrâncias do calor das impressões digitais tesas como paus acabados de secar ao sol. Vi roupa a secar. Não era a minha. E roupa a secar diz por onde andaste nos últimos passos. Não foi por ali. Nada sei sobre territórios alheios, que não têm estradas para o meu. Seria? Era tudo tão silencioso, até o vento entrar assobiando. Não gosto de territórios alheios com vento, pois levam as folhas que faltam secar. Não gosto de territórios alheios com frio, pois minguam-nos o olhar... Gosto de passos incertos e de ir aos territórios alheios quando eles me levarem, sem que olhar me mingue, sem que as folhes me sequem, e sempre que o caminho deslize até lá...
Quarta-feira, Julho 15, 2009
Sábado, Julho 11, 2009

O cheiro mofado que vinha do quarto, e nós a inventar formas de lá entrar, sem que o avô percebesse, nos repreendesse por tamanha curiosidade pelas coisas com idade para serem nossos tetaravós, e a ingenuidade que tomava conta de nós. Saíamos às escondidas para nos aproximarmos dos móveis antigos, ouvir o chiar das dobradiças que agoniavam em gemidos demorados num amargar que só elos de ferro calejados que unem madeiras com cheiro de tempo que sabemos não ser o nosso. E depois, aquela naftalina que nos entrava pelas narinas, deixando mazelas por horas de tão forte acometimento involuntária dos sentidos, como se dissesse

- a partir de agora nada mais cheirarás senão este desuso dos sentidos que te anestesia e priva de saber se o ar anda enfeitado de outros odores, não saberás, portanto, nada mais que aquilo que te permito cheirar

como castigo pelo atrevimento infantil pelo que, na altura, seria o desafio dos deuses e a maior das empreitadas: vasculhar o quarto dos avós, e aquelas jóias antigas que nos enchiam os olhos e pegava ao colo para um romance literário, os lenços de senhoras que imaginávamos saídas de um café de belle époque, os postais que já ninguém escreve vindos de colónias de férias, termas, Algarves luxuosos e Espanhas que já não existem senão em postais assim ou histórias contadas, e já ninguém compra caramelos por lá, daqueles que se colavam aos dentes, sabiam a açúcar torrado, prendiam ao céu da boca e queríamos tanto voltar lá rápido já amanhã, como se tudo fosse tão rápido e intenso à velocidade com que abríamos e fechávamos as gavetas da cómoda, depois das fotografias a preto e branco que descobríamos com documentos antigos que achávamos sempre tão longe numa inocência de imortalidade e de tempo parado, e já não se fazem móveis antigos para cheirar naftalina, anestesiar os sentidos e enrugar as mãos com pó mofado e mãos bolorentas de traças que matamos, para que não contasse que chegamos a vê-las, com o coração a palpitar o lugar onde dormiam, como se tivessem mais direito à herança de segredos antigos daquela gente que era a nossa.
Quarta-feira, Julho 08, 2009
Por que demoras?
Em brisa que se faz conter
Em lágrimas de sorrisos
E onde moras,
Em ti?
Por que esperas?
Nesse refúgio de encantamento
que não se arreda de si
O que esperas?
Dessa amarra libertina
que te dá olhos para esconder
Sem quereres desvelar-janelas-sem-vidros
que és maior que ti
De que és casa
onde se repousa
descoberta de gastos de vida por usar
num certo momento
que só, assim, o é
logo que começares a andar
pés-nus
Que espera que tires o xaile
e descubras o frio
para depois o quente do abraço palpitação
eterno, suave, rasgado de ti
entregue ao vento e à perda
de ser. se já não o és!
Em brisa que se faz conter
Em lágrimas de sorrisos
E onde moras,
Em ti?
Por que esperas?
Nesse refúgio de encantamento
que não se arreda de si
O que esperas?
Dessa amarra libertina
que te dá olhos para esconder
Sem quereres desvelar-janelas-sem-vidros
que és maior que ti
De que és casa
onde se repousa
descoberta de gastos de vida por usar
num certo momento
que só, assim, o é
logo que começares a andar
pés-nus
Que espera que tires o xaile
e descubras o frio
para depois o quente do abraço palpitação
eterno, suave, rasgado de ti
entregue ao vento e à perda
de ser. se já não o és!
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009
Poderia rasgar o que resta do céu e engoli-lo em soluços até me pregarem um susto. Um poço de ar entre as nuvens; o oscilar da frente fria com a quente. Mas essas molas de turbulência há muito que oxidaram, não são fofas e flexíveis. Deixam-se ir, porque gostam que as levem: já deixaram de respirar, por isso, o ar não importa.
Depois, zonza com a falta de oxigênio, poderia digerir cada palavra atirada que só o céu permite, com estranhamento, e engasgar-me com as espinhas que arranham a garganta e lá ficam. Tentaríamos a manobra de Heimlich para ver se aliviava, mas quanto mais pressionava, mais a respiração se tangia a poços de ar, em queda livre. Depois da última pressão, ela cai, com o que resta do mundo, em soluços.
Depois, zonza com a falta de oxigênio, poderia digerir cada palavra atirada que só o céu permite, com estranhamento, e engasgar-me com as espinhas que arranham a garganta e lá ficam. Tentaríamos a manobra de Heimlich para ver se aliviava, mas quanto mais pressionava, mais a respiração se tangia a poços de ar, em queda livre. Depois da última pressão, ela cai, com o que resta do mundo, em soluços.
Terça-feira, Novembro 18, 2008
À hora dos silêncios dos espaços entre os dedos, um ar qualquer toma conta dessa respiração ofegante: a da transpiração dedilhada. Se o olho chegasse ao zoom pormenorizado veria como cada poro se dilata para chegar à descrição. São dedos a arder, que passam o dia em provas de velocidade entre o alfabeto com vírgulas, acentos, pontos e muitos, mas muitos pontos e vírgulas, reticências com parêntesis e números por extenso. É que por vezes, como a vida, tentamos abreviar com representação numérica e esquecemo-nos que é melhor escrevê-la por extenso.
De esguelha e polidamente, as teclas lá vão obedecendo aos dedos que lhes batem com as pontas, num exercício de inveja. Isso porque eles sempre tentam saltar para uma qualquer outra letra que não aquela que ordenamos. Em vez de um “zê” um “esse” e prontamente uma palavra que não sabemos e pode significar algo noutra língua cujas formas de expressar as emoções poderiam ser mais delicadas ou rudes, com a pujança incerta de não dominar aquele linguarejar. Sempre é difícil controlar a ponta dos dedos que nos levam à gralha, e ao que por vezes pode orginar um erro ortográfico. É que os dedos, apesar de filhos do cérebro, podem não estar alinhados com as razões da alma que os leva àquela ou aqueloutra palavra e não à que justamente se ata com o valor que se quer. Por essas, dedicamos minutos de silêncio. Zeros representados por extenso, para prolongar o silêncio e o espaço entre a vida!
De esguelha e polidamente, as teclas lá vão obedecendo aos dedos que lhes batem com as pontas, num exercício de inveja. Isso porque eles sempre tentam saltar para uma qualquer outra letra que não aquela que ordenamos. Em vez de um “zê” um “esse” e prontamente uma palavra que não sabemos e pode significar algo noutra língua cujas formas de expressar as emoções poderiam ser mais delicadas ou rudes, com a pujança incerta de não dominar aquele linguarejar. Sempre é difícil controlar a ponta dos dedos que nos levam à gralha, e ao que por vezes pode orginar um erro ortográfico. É que os dedos, apesar de filhos do cérebro, podem não estar alinhados com as razões da alma que os leva àquela ou aqueloutra palavra e não à que justamente se ata com o valor que se quer. Por essas, dedicamos minutos de silêncio. Zeros representados por extenso, para prolongar o silêncio e o espaço entre a vida!
Sexta-feira, Setembro 26, 2008
Bielman F.
Os fios do chuveiro entram em curto-cirtuito. Czlap. Pifff! Não percebe. Ensaboa o corpo. Esfrega os pêlos do sovaco com violência redundante que quase arranca os mais velhos. A espuma escorre sorrateiramente pelos pêlos do peito, grossos e pretos. E agora peçonhentos de sabonete barato.
Cheira a queimado. “A vizinha de certeza”. Tudo se ouve. Tudo se cheira. Os cheiros todos se misturam de andar em andar com perfeita promiscuidade entre amante-marido-mulher-amante-marido-mulher. Parece plástico chamuscado, mas àquela hora, nada lhe ocorria que pudesse assemelhar-se a iguaria gastronómica com subtilezas chamuscadas. A água escorre quente. Mais um czlap-pifff! Faiscante. Colapsos eléctricos. O frenesim disparado vai carcomendo o fio vermelho, encostado ao branco enfarruscado. O telefone toca. Uma, duas, quatro vezes intermitentenente. “A vizinha, de novo”. Cinco vezes. A água vai escorrendo. Escorre, desliza e percorre o corpo branquela como nenhuma mulher há meses. Ele pensa nisso e acha que não deve ficar por aí. Mas o telefone toca. Uma. Duas....Desabituou-se ao ring. Não se recorda da última vez. Cheira a queimado. Enrola a toalha numa desordem. Molha o corredor de madeira rangente. Os pés nus assolapam o piso de líquidas memórias de água e sabonete. Atrás, o chuveiro escorre. A faísca, de novo. E a água ali tão abeirada. O fio estorricado. Quinta vez. Levanta o gancho do telefone anos 80 chapado no retro.
-Senhor Bielman! Hoje à noite. 21h. Dois cigarros depois. Leve a carta!
Desligou. Czlap-pifff! O painel eléctrico estourou.
Cheira a queimado. “A vizinha de certeza”. Tudo se ouve. Tudo se cheira. Os cheiros todos se misturam de andar em andar com perfeita promiscuidade entre amante-marido-mulher-amante-marido-mulher. Parece plástico chamuscado, mas àquela hora, nada lhe ocorria que pudesse assemelhar-se a iguaria gastronómica com subtilezas chamuscadas. A água escorre quente. Mais um czlap-pifff! Faiscante. Colapsos eléctricos. O frenesim disparado vai carcomendo o fio vermelho, encostado ao branco enfarruscado. O telefone toca. Uma, duas, quatro vezes intermitentenente. “A vizinha, de novo”. Cinco vezes. A água vai escorrendo. Escorre, desliza e percorre o corpo branquela como nenhuma mulher há meses. Ele pensa nisso e acha que não deve ficar por aí. Mas o telefone toca. Uma. Duas....Desabituou-se ao ring. Não se recorda da última vez. Cheira a queimado. Enrola a toalha numa desordem. Molha o corredor de madeira rangente. Os pés nus assolapam o piso de líquidas memórias de água e sabonete. Atrás, o chuveiro escorre. A faísca, de novo. E a água ali tão abeirada. O fio estorricado. Quinta vez. Levanta o gancho do telefone anos 80 chapado no retro.
-Senhor Bielman! Hoje à noite. 21h. Dois cigarros depois. Leve a carta!
Desligou. Czlap-pifff! O painel eléctrico estourou.
Terça-feira, Setembro 23, 2008
Está quente
A chuva treme lá fora
O inferno arde no gelo de humanidades
Balde de equívocos, espelhados
Há um esgaçar qualquer que vem das entranhas
Ou são apenas estranhas memórias de rigidez
Já não há quem gema assim
E as cadeiras em que se senta rangem sempre
Um adormecimento bélico
De convulsivos rasgos bravos
Sorvidos em vidas gastas
Tempo morto, absorto, abortado!
Ex-pele!
Se ele parasse! Como pára!
Como se prostitui em caracteres humanos
Pérfidos malandros
Há malandragens assim – como o fumo de cigarro
Esvoaçantes, gaguejadas em mentiras
Baú de mentiras – bruxuleantes intrigas contadas
Até serem verdade…
Quanto vale uma verdade?
Há mentiras vendidas ao quilo
Inverdades são genéricos mal compostos
Corruptas vísceras em revolta congestão
E o vómito, senhores, é a purgação
Para esta nauseabunda humanidade!
A chuva treme lá fora
O inferno arde no gelo de humanidades
Balde de equívocos, espelhados
Há um esgaçar qualquer que vem das entranhas
Ou são apenas estranhas memórias de rigidez
Já não há quem gema assim
E as cadeiras em que se senta rangem sempre
Um adormecimento bélico
De convulsivos rasgos bravos
Sorvidos em vidas gastas
Tempo morto, absorto, abortado!
Ex-pele!
Se ele parasse! Como pára!
Como se prostitui em caracteres humanos
Pérfidos malandros
Há malandragens assim – como o fumo de cigarro
Esvoaçantes, gaguejadas em mentiras
Baú de mentiras – bruxuleantes intrigas contadas
Até serem verdade…
Quanto vale uma verdade?
Há mentiras vendidas ao quilo
Inverdades são genéricos mal compostos
Corruptas vísceras em revolta congestão
E o vómito, senhores, é a purgação
Para esta nauseabunda humanidade!

