segunda-feira, abril 28, 2008

Um pouco mais!

Abres a porta como se o ar fosse acabar! Puff! Um instante: o telefone tocou! A campainha. Nunca ninguém te entende sopro meu! Falas como se quisesses fugir do vento! Querias que o mundo tivesse quanto tempo afinal? Há pedacinhos, assim, que nos esquecemos dele! Vamos fazê-lo parar, de novo? Como se faz? Abotoas o casaco, como te agasalhas da vida. Talvez devesses apanhar mais resfriados de quando em vez, para saberes que a febre pode ser um bom delírio. Ou que eu, ou que tu! Arrepias-te com este calor? Suor frio de medo... Como as rosas sem espinhos! Sem piada! Deixa o telefone! Já não escreves cartas! Nem lambes os selos com a saliva da ansiedade! Deixa-me entrar! Range a fechadura. Ainda estou lá dentro quando espreitas?

sexta-feira, abril 25, 2008

Saudade

Agora, sim, a saudade! Decorei este poema quando tinha 12 anos, para uma aula de português. A memória nunca o esqueceu e, uma vez que pensei nele, por causa da Helena Blavatsky, deu-me a saudade de o recordar: ali paradinha, em plena pré-adolescência, com o quadro de giz atrás e algumas dezenas de olhares centrados em mim e na minha timidez saiu a "Hora morta", tremidinha e, agora, tão actual como se fosse amanhã:

Fernando Pessoa

Hora Morta


Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora !)
Lenta e lenta e lenta,
Lenata e sonolenta
A lua se escoa...
Tudo tão inútil !
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil - ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...

Naufrágio ante o ocaso...
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)
Porque lenta ante olha
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar ?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar ?
Fernando Pessoa arrepiou-se com ela. Tom Zé falou-me dele: como pode ser estridente e ruidoso este silêncio...

quinta-feira, abril 24, 2008

Meias luas

Espera ainda tenho sede!Dás-me vinho? Um pouco mais de luz, por favor! Podes apagar!A vela, deixaste a vela a derreter!O motor do carro ainda treme! Há gotas na janela!O vento geme as persianas!Fecha a porta! A cortina tirou-me a luz. Podias dormir cá hoje! A pele não tem cheiro de nada! Os lábios colam-se! Gelo…Já foste! Não dizes nada!Não sei se quero saber! Talvez não! Senti aquela dor no peito outra vez! Talvez tenha ar nas veias. Elas vão com ele! Senta-te aqui! Não te afundes tanto no sofá!Espera, que estás a ler? Podias escrever… Que cheiro tem a minha pele, afinal? Não sinto! Tenho borboletas a roçar-me o estômago! Abraça-me! Podias apagar a luz… Dói-me os olhos. Não consigo dormir! Ouço o motor! Chove de novo. Escorre! Diz! Abre-a! Se o sono chovesse! Adocicado… Não ia haver vento! As cortinas dormem.. Sabem… Podes matar a sede com as gotas lá de fora… A tua pele cheira a chuva! Secou com o calor das velas! Podes voltar amanhã, que o vinho estará servido!

terça-feira, abril 22, 2008

LER aos Pedaços


A nova revista LER começa a juntar-se num puzzle. Dirigida por Francisco José Viegas e com coordenação de João Pombeiro, a nova publicação, com o carimbo do "Circulo de Leitores", parece vir dar à Literatura o tratamento transversal de que ela estava órfã, entre nós. Para começar a ler...aos pedacinhos AQUI

segunda-feira, abril 21, 2008

Relembrando!\Maria João Pires

Notre douleurs

A que nos resumimos!

Desafio lançado pela Guida, em Londres!

Um mês seria: Maio, mais todos os outros
Um dia da semana: Sábado
Um número: 7
Um planeta: Vénus
Uma direcção: sem rumo
Um móvel: baú
Um líquido: vinho
Um pecado: todos
Uma pedra: a filosofal!
Um metal: o dos parafusos da máquina fotográfica!
Uma árvore: chaparros!
Uma fruta: Amêndoas
Uma flor: Girassol!
Um clima: frio…para enrolar a manta!
Um instrumento musical: violino e depois, o silêncio!
Um elemento: fogo!
Uma cor: vermelho!
Um animal: labrador!
Um som: mar!
Uma canção: Romance, Chopin, pelas mãos da Maria João Pires
Um perfume: a pele
Um sentimento: o dos abraços prolongados!
Um livro: “Ensaio sobre a Cegueira”
Uma comida: aquela que ainda não experimentei!
Um lugar: o das viagens sem rumo de mochila às costas!
Um gosto: Canela!
Um cheiro: terra molhada depois da chuva
Uma palavra: aventura
Um verbo: Reinventar
Um objecto: caderno
Uma peça de roupa: lenço
Uma parte do corpo: ombros
Uma expressão: sorriso
Um filme: a minha vida dava um!
Uma forma: oblíqua
Uma estação: Liberdade!
Uma frase: Não exigas mais dos outros do que eles te podem dar, espontaneamente!

As minhas cidades invisíveis


As "Cidades invisíveis" de Italo Calvino jamais se poderiam dar bem umas com as outras! Não porque a sua disfuncionalidade é real em demasia, mas sim porque o seu sofrimento é antagónico em doses pesadas: destruir-se-iam em segundos! Nunca fui boa para nomes, por isso, não sei denominar como se chama a cidade dos "vivos" e dos "mortos"; ou aquela que os todos os homens idealizaram e não encontraram e, por isso, resolveram erguer, baseando-se em visões comuns! Eu sei: poderia ir ao livro de novo e ver, o nome justo pelo qual Marco Pólo as suspirou ao Kublai Khan! Mas não quero. Preciso, simplesmente, que essas cidades vivam dentro de mim, para que, desleixadamente, deixe que as pessoas que habitam nelas se cruzem comigo e eu saiba donde elas são; mesmo que elas venham de tão longe, como se eu nunca tivesse ouvido falar delas. Nesse dia, saberei que Ítalo Calvino já me falou delas ao ouvido. O mais curioso desta minha viagem, agora, com a mala do escritor, é que há uns anos, inconscientemente, sem sequer ter cruzado os olhos pelas cidades do Calvino escrevi uma crónica sobre viagens no suplemento "Fugas", do jornal "Público" com o título: “Viagem pelos lugares invisíveis”. Aí, acerca de uma incursão deambulante pelas surpresas da cidade de Copenhaga [Dinamarca] sem mapa, numa real descoberta das doçuras e sabores acres... Tropeçando, sem querer, nos lugares dentro de nós, e que só os nossos olhos sentem! O texto não é brilhante, nem se compara à maestria de Calvino. Mas vale pela coincidência da invisibilidade das cidades que habitam dentro de nós, que mais ninguém vê, mas quem sabe, com elas pode sonhar!Nesta altura, eu começava a conhecer as cidades dentro de mim!


Foto por vnrodrigues

Viagem pelos lugares invisíveis
Por Vanessa Rodrigues

Existem em todas as cidades. Na esquina de um prédio urbano. Nas ruelas sem saída. Ao redor de uma praça antiga. No limite de um túnel. Perto do metro. À saída de um hotel. À entrada de uma estação de comboio. Por trás de uma paragem de autocarro. Perto de um néon publicitário. Ao lado do café da moda. Só que por vezes não os vemos. Não percebemos os lugares invisíveis de uma cidade. Aqueles que não preenchem o mapa turístico. E contam mais histórias da cidade que visitamos, do que as atracções sugeridas. Perdemo-los. E não perscrutamos o genuíno telúrico. É nesses lugares que melhor sorvemos a cidade, a vila, o lugar. É no íntimo de locais incomuns que aprendemos a respirar ao ritmo da cidade. (Porque cada sítio tem um tempo próprio vital). Todos os lugares são assim. Não podiam deixar de o ser. Essas paragens estão imunes ao trilho turístico. São invisíveis porque se escondem no oculto citadino. Pelo interesse relativo de uns e a curiosidade de outros. Esses lugares podem ser os antiquários – que contam histórias da cidade. Os alfarrabistas, que pintam o cenário histórico do lugar. São a biblioteca local. A loja de discos antigos. A papelaria com design arrojado. O largo residencial de um prédio. As portas envelhecidas de uma casa (que sussurram narrativas). O jardim escondido ao dobrar a esquina. O café secular que serve chá em bules de porcelana antiga. O mercado onde, pela manhã, os olhos despertam para um dia de comércio. Mais: esses lugares (e ainda outros perdidos, por descobrir) são toda a cidade. O complemento ao sorver verdadeiro. Para sentir os cheiros que a movem. Os movimentos que faz. A hospitalidade que se apruma.

É, precisamente, no íntimo dos pequenos lugares – que, por acaso, se encontra – que quem habita a cidade está mais disponível para acolher. Mais predisposto a responder às curiosidades de quem visita a cidade.

Se realmente se quiser conhecer o lugar que se explora. Há um dia reservado para os lugares invisíveis. Que cada um descobre. À cadência do passo individual. Pela manhã. À tarde. Ao entardecer. À noite. Ou quem sabe ao amanhecer palpitante. Porque a aurora de um lugar desconhecido é sempre uma epifania a desvendar.

Relação Perfeita!

Deixaste a tampa da sanita levantada!Não lavaste a louça! Fizeste a cama? E a sala, ao menos, arrumaste? As cervejas, caramba!Sempre a mesma coisa! Em cima do bordado! Tapaste a pasta dos dentes? Não limpaste o lavatório dos pêlos da barba! Muda o canal para o futebol!Já te disse! Isso...ahhhh! Viste? Foi golo! Eu não vi! Puseste a cerveja a referescar? Limpaste a banheira? É a tua vez de lavar a louça! Porque me deixaste sozinha a conversar! Ah! Aquele era o teu chefe? Porque não me apresentaste? Estou mais gorda! Não achas que emagreci? 200 gramas! Estou de dieta!

Comprei apenas uma camisa, amor! Depois, aproveitei e comprei, também, umas meias para ti… Uma saia, uns sapatos, uns brincos, uma carteira, um creme, um batom, um casaco…ahhh! E aquela lingerie que me disseste que adoravas; e que cairia que nem uma luva em mim, quando fizesse dieta! Só isso! Deste de comer ao cão? Foste passeá-lo? Passei a noite a passar a ferro! Chegaste a que horas? Limpaste o presente que o teu cão deixou na sala? E o teu filho? Falaste com a tua filha? Grrrrrrrr!!!

Hum, convidaste os teus pais para almoçar? Perfeito! Colocaste o quadro na parede? Há anos que te peço e dizes sempre: "ah! isso é fácil é só fazer um furinho! E que é dele?". Mas disseste que não tinha problema! Compraste um carro novo? Espera: compraste-um-carro-novo? O papel higiénico acabou! Chegas-me a toalha? Não, hoje não! Estou com dor de cabeça. Não, estou cansado! Marcas de batom? Amor, este perfume!!! Estranho! De quem é este cabelo? Mas eu sou loira! Como disseste mesmo que se chamava o teu chefe? Ah, o mesmo que aparece nas mensagens! Fecha a porta!

Apaga a luz! Não venhas tarde! No sofá? Hoje? Eu disse-te que era por ali! Eu bem te disse! Tu é que quiseste virar à direita! Porque não perguntamos? Andamos às voltas! Acho que já passamos por aqui! Não? Não me disseste que estou linda hoje! Sim, cortei o cabelo. Há dois meses!Podias pôr aquela blusa! Aquele batom! Aquela saia! Os brincos! Mas disseste que não gostavas! É hoje! Quê? Já passou um ano! Hum…Rosas, de novo? Arroz? Outra vez?

segunda-feira, abril 14, 2008

"Eliminar Amigo"?????

Quando, no canto inferior direito da fotografia de cada uma das pessoas, que fazem parte dos nossos contactos, de um qualquer programa de rede social (tipo myspace; hi5;orkut, etc, aparece a opção "eliminar amigo", significa que alguma coisa está gravemente errada, há demasiado tempo, com a forma como nos relacionamos!A picada indolor da realidade não está, afinal, assim tão longe como eu pensava!

segunda-feira, abril 07, 2008

Into the Wild



Há cerca de duas semanas esbarrei com este filme na tela. Mergulhei sozinha na sala!Tive de me conter! Pelo menos não estava preparada para ele. Nem para as músicas de Eddie Vedder! Decidi que não iria ler nada sobre o filme. Queria entrar em branco na história. Pahhh! Foi como se recebesse várias picadas de abelha, subtis, mas dolorosas; e como se depois começasse a inchar, devagarinho! O filme fez estragos! Voltei para casa a pé! Foi como se Sean Penn me tivesse atirado um balde de água gelada, depois de uma sauna quentinha. Ele não me conhece, mas conseguiu retratar direitinho muitas das coisas que penso e guardo quietinhas num baú! Não falamos da história, mas da liberdade que a rodeia! Já disseram muitas vezes que não me consigo fazer entender!É certo! Cada um de nós tem uma linguagem! Não há dicionários sobre elas! De resto, desde Penn, só Júlio Medem tinha feito isso comigo com a "CaóticAna"! Há realizadores que sabem demais sobre o mundo!E conseguem, assim, frame a frame falar sobre nós!

quinta-feira, abril 03, 2008


Lisboa, Fevereiro, 2008