quarta-feira, fevereiro 24, 2010

-Alma Silício-

Sair para fora sem entrar. Chuva. Atrito. Estrada. Clap. Chuva oblíquia, líquida, liquefeita, liquefacta. (Casada De Facto?). É água que cai das nuvens: agulhas novas a entrar na Pele (pél~[ë]). Ele? Esquinas. A casa branca da mulher que morreu. A casa verde da mulher que viveu. A casa. Só a casa. Sem-casa. 

Vento. Ai, que assobios. Arrepios. Cá dentro? Árvores sem galhos, podados. Os ramos secos, ardidos, queimados, amarelos, a querer ir com o vento e a arrastarem-se presos. Desgastam-se. Quase se vão, sem ir. Agoniam. Um quase-ir para, ainda, ficar. Ahhh! Se eu fosse humidade nas varandas. Húmus, musgo, lama pardacenta muito conspurcada. Lítica de mágoas. Haverá? 

Restos de chuva, gotas blasé, modernas, comerciais, de chuva fabricada (en-ce-nada), nas paredes da branca-casa. Onde viveu aquele homem que lhe batia. Agonia. Trazia outros lá para casa depois do expediente. Doente. Crises. Anemias da alma. Falta de fibra, ferro. Arre! Como oxidas! Não escorre água. 

A casa é cinzenta, coitada. O homem segura-se no muro. Não tem casa de janelas para os ver passar. Está frio. Calafrios. Cala-te a frio! Será isso? Sair para ir e não entrar. Voltar. Não arredar pé e arribar na vida. Sem saída. Crime. O Castigo é ficar. Sem ar. Sufocar. Vem. Pluff, nuvens de oxigénio. Água da chuva. 

Galhos que são esqueletos de passagem de tempo. Vento. Bluff! Verde alegria, verde inverno, verde mata, mata.Gal. (Que é?). Verde-agonia. Verde sibilingórnio. Verde-raiva-aiva-aiva. Castanho terra, lama-marron, ahhh: lama cor-de-tronco maduro. Glac-plung. Partiu o pau. O galho foi-se, castanho terra húmida. É terra. Só terra. Erra, como erra! É alma-silício: castanha em estado amarfo, cinzento chumbo se cristalizado, (antes de partir: tudo se parte, o corpo vai) - funde-se a 2 000ºC e volatiliza-se no forno eléctrico! 

A vida, pluf: é um curto-circuito!

sábado, fevereiro 20, 2010

Hilda Ar

Saias rodadas, vento.
Lábios carnudos, rebentos.
Carne rosada, macilenta, macia e lenta
Mãos gastas, suadas, suas e usadas
Abraços, pedaços de pele, peito a peito, que nos deram. Foram?
A Hilda ainda lá está. Quer saias, rodas, vento.
Quer beijos, macios, lentos.
Quer mãos, corpos suados, usados por abraços.
Quer rosas, carnudas.
Quer rebentos de ar, dedos de mãos, pedaços, peitos que há,
Quer ser Hilda, quer ser saia, vento, mãos, pele, lábios, macieza, lentidão, uso seu.

quarta-feira, julho 15, 2009

Acordei em território alheio. Não era eu, ou seria? Misturei as pegadas para que não se percebesse, mas nada reconhecia. Nem as folhas misturadas no jardim, nem o verde-forte-entranhado no chão como tapete colado ao taco que outrora a moda escondeu. O céu, as sensações, a pele aguda e as mãos de texturas finas, acabadas de receber o frio que queria dormir gratuito nas reentrâncias do calor das impressões digitais tesas como paus acabados de secar ao sol. Vi roupa a secar. Não era a minha. E roupa a secar diz por onde andaste nos últimos passos. Não foi por ali. Nada sei sobre territórios alheios, que não têm estradas para o meu. Seria? Era tudo tão silencioso, até o vento entrar assobiando. Não gosto de territórios alheios com vento, pois levam as folhas que faltam secar. Não gosto de territórios alheios com frio, pois minguam-nos o olhar... Gosto de passos incertos e de ir aos territórios alheios quando eles me levarem, sem que olhar me mingue, sem que as folhes me sequem, e sempre que o caminho deslize até lá...

sábado, julho 11, 2009












O cheiro mofado que vinha do quarto, e nós a inventar formas de lá entrar, sem que o avô percebesse, nos repreendesse por tamanha curiosidade pelas coisas com idade para serem nossos tetaravós, e a ingenuidade que tomava conta de nós. Saíamos às escondidas para nos aproximarmos dos móveis antigos, ouvir o chiar das dobradiças que agoniavam em gemidos demorados num amargar que só elos de ferro calejados que unem madeiras com cheiro de tempo que sabemos não ser o nosso. E depois, aquela naftalina que nos entrava pelas narinas, deixando mazelas por horas de tão forte acometimento involuntária dos sentidos, como se dissesse







- a partir de agora nada mais cheirarás senão este desuso dos sentidos que te anestesia e priva de saber se o ar anda enfeitado de outros odores, não saberás, portanto, nada mais que aquilo que te permito cheirar




como castigo pelo atrevimento infantil pelo que, na altura, seria o desafio dos deuses e a maior das empreitadas: vasculhar o quarto dos avós, e aquelas jóias antigas que nos enchiam os olhos e pegava ao colo para um romance literário, os lenços de senhoras que imaginávamos saídas de um café de belle époque, os postais que já ninguém escreve vindos de colónias de férias, termas, Algarves luxuosos e Espanhas que já não existem senão em postais assim ou histórias contadas, e já ninguém compra caramelos por lá, daqueles que se colavam aos dentes, sabiam a açúcar torrado, prendiam ao céu da boca e queríamos tanto voltar lá rápido já amanhã, como se tudo fosse tão rápido e intenso à velocidade com que abríamos e fechávamos as gavetas da cómoda, depois das fotografias a preto e branco que descobríamos com documentos antigos que achávamos sempre tão longe numa inocência de imortalidade e de tempo parado, e já não se fazem móveis antigos para cheirar naftalina, anestesiar os sentidos e enrugar as mãos com pó mofado e mãos bolorentas de traças que matamos, para que não contasse que chegamos a vê-las, com o coração a palpitar o lugar onde dormiam, como se tivessem mais direito à herança de segredos antigos daquela gente que era a nossa.

quarta-feira, julho 08, 2009

Por que demoras?
Em brisa que se faz conter
Em lágrimas de sorrisos
E onde moras,
Em ti?
Por que esperas?
Nesse refúgio de encantamento
que não se arreda de si
O que esperas?
Dessa amarra libertina
que te dá olhos para esconder
Sem quereres desvelar-janelas-sem-vidros
que és maior que ti
De que és casa
onde se repousa
descoberta de gastos de vida por usar
num certo momento
que só, assim, o é
logo que começares a andar
pés-nus
Que espera que tires o xaile
e descubras o frio
para depois o quente do abraço palpitação
eterno, suave, rasgado de ti
entregue ao vento e à perda
de ser. se já não o és!

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Poderia rasgar o que resta do céu e engoli-lo em soluços até me pregarem um susto. Um poço de ar entre as nuvens; o oscilar da frente fria com a quente. Mas essas molas de turbulência há muito que oxidaram, não são fofas e flexíveis. Deixam-se ir, porque gostam que as levem: já deixaram de respirar, por isso, o ar não importa.
Depois, zonza com a falta de oxigênio, poderia digerir cada palavra atirada que só o céu permite, com estranhamento, e engasgar-me com as espinhas que arranham a garganta e lá ficam. Tentaríamos a manobra de Heimlich para ver se aliviava, mas quanto mais pressionava, mais a respiração se tangia a poços de ar, em queda livre. Depois da última pressão, ela cai, com o que resta do mundo, em soluços.

terça-feira, novembro 18, 2008

À hora dos silêncios dos espaços entre os dedos, um ar qualquer toma conta dessa respiração ofegante: a da transpiração dedilhada. Se o olho chegasse ao zoom pormenorizado veria como cada poro se dilata para chegar à descrição. São dedos a arder, que passam o dia em provas de velocidade entre o alfabeto com vírgulas, acentos, pontos e muitos, mas muitos pontos e vírgulas, reticências com parêntesis e números por extenso. É que por vezes, como a vida, tentamos abreviar com representação numérica e esquecemo-nos que é melhor escrevê-la por extenso.

De esguelha e polidamente, as teclas lá vão obedecendo aos dedos que lhes batem com as pontas, num exercício de inveja. Isso porque eles sempre tentam saltar para uma qualquer outra letra que não aquela que ordenamos. Em vez de um “zê” um “esse” e prontamente uma palavra que não sabemos e pode significar algo noutra língua cujas formas de expressar as emoções poderiam ser mais delicadas ou rudes, com a pujança incerta de não dominar aquele linguarejar. Sempre é difícil controlar a ponta dos dedos que nos levam à gralha, e ao que por vezes pode orginar um erro ortográfico. É que os dedos, apesar de filhos do cérebro, podem não estar alinhados com as razões da alma que os leva àquela ou aqueloutra palavra e não à que justamente se ata com o valor que se quer. Por essas, dedicamos minutos de silêncio. Zeros representados por extenso, para prolongar o silêncio e o espaço entre a vida!

sexta-feira, setembro 26, 2008

Bielman F.

Os fios do chuveiro entram em curto-cirtuito. Czlap. Pifff! Não percebe. Ensaboa o corpo. Esfrega os pêlos do sovaco com violência redundante que quase arranca os mais velhos. A espuma escorre sorrateiramente pelos pêlos do peito, grossos e pretos. E agora peçonhentos de sabonete barato.
Cheira a queimado. “A vizinha de certeza”. Tudo se ouve. Tudo se cheira. Os cheiros todos se misturam de andar em andar com perfeita promiscuidade entre amante-marido-mulher-amante-marido-mulher. Parece plástico chamuscado, mas àquela hora, nada lhe ocorria que pudesse assemelhar-se a iguaria gastronómica com subtilezas chamuscadas. A água escorre quente. Mais um czlap-pifff! Faiscante. Colapsos eléctricos. O frenesim disparado vai carcomendo o fio vermelho, encostado ao branco enfarruscado. O telefone toca. Uma, duas, quatro vezes intermitentenente. “A vizinha, de novo”. Cinco vezes. A água vai escorrendo. Escorre, desliza e percorre o corpo branquela como nenhuma mulher há meses. Ele pensa nisso e acha que não deve ficar por aí. Mas o telefone toca. Uma. Duas....Desabituou-se ao ring. Não se recorda da última vez. Cheira a queimado. Enrola a toalha numa desordem. Molha o corredor de madeira rangente. Os pés nus assolapam o piso de líquidas memórias de água e sabonete. Atrás, o chuveiro escorre. A faísca, de novo. E a água ali tão abeirada. O fio estorricado. Quinta vez. Levanta o gancho do telefone anos 80 chapado no retro.
-Senhor Bielman! Hoje à noite. 21h. Dois cigarros depois. Leve a carta!
Desligou. Czlap-pifff! O painel eléctrico estourou.

terça-feira, setembro 23, 2008

Está quente
A chuva treme lá fora
O inferno arde no gelo de humanidades
Balde de equívocos, espelhados
Há um esgaçar qualquer que vem das entranhas
Ou são apenas estranhas memórias de rigidez
Já não há quem gema assim
E as cadeiras em que se senta rangem sempre
Um adormecimento bélico
De convulsivos rasgos bravos
Sorvidos em vidas gastas
Tempo morto, absorto, abortado!
Ex-pele!
Se ele parasse! Como pára!
Como se prostitui em caracteres humanos
Pérfidos malandros
Há malandragens assim – como o fumo de cigarro
Esvoaçantes, gaguejadas em mentiras
Baú de mentiras – bruxuleantes intrigas contadas
Até serem verdade…
Quanto vale uma verdade?
Há mentiras vendidas ao quilo
Inverdades são genéricos mal compostos
Corruptas vísceras em revolta congestão
E o vómito, senhores, é a purgação
Para esta nauseabunda humanidade!

quinta-feira, setembro 04, 2008

Só desta vez!
Escorre de n.o.v.o. as mãos na janela!
Ainda gosto do deslizar
quando as gotas ficam suspensas.

segunda-feira, agosto 11, 2008

Contas de Rosário [um conto paciente]

Cinquenta e nove. Ela jurava que eram cinquenta e nove. Vezes sem conta sentira com as mãos gastas do tempo cada uma das pequenas bolas circulares polidas, como se o vento lapidasse, minuciosamente - e com prazer - cada uma das contas do rosário. A dona Cecília sabia que eram cinquenta e nove pedrinhas, por isso quando a vizinha do lado há pouco a contrariou e disse que eram sessenta, a dona Cecília virou costas e ficou de mal com a outra - com quem trocava lamentos e confidências há tanto tempo que nem elas sabiam ao certo os anos. Nem os registos estavam lá para o dizer. Ou as portas falavam; ou o acre da parede confessava o que ouvira.

Cecília apressou-se para casa. Conhecedora do caminho de olhos fechados, ciente de cada recanto que contornava a esquina que antecedia a humilde habitação, a mulher entrou de rompante e esquecida que o sol brilhava no céu, depois de mais de um mês de chuvas e ventos consecutivos, que estraçalharam as poucas colheitas dos quintais e dos campos que cercavam a aldeia. Ela quedou-se em casa. Abriu a porta do quarto de madeira rangente e pôs-se a contar em voz alta as contas do rosário. Era um vício que adquirira na missa do padre Samuel, em pequena, quando esse pároco rabugento e de cabelo grisalho sebento; voz grossa assustadora e andar trôpego, resolvia divagar nas homilias semanais, acrescendo à missa mais uma hora que o normal.

A dona Cecília - a “Cilinha”, desde os tempos em que achava que o mundo era gigante, mas depois que virou mulher encalhada para a aldeia mudou para "simplesmente-Cecília" (e contam as más línguas que foi mal agradecida ao recusar enxoval da madrinha de berço e declinar casamento com o filho do patrão da mãe, o famigerado Gonçalves de Alba, da quinta dos Alba de além-terras, bonacheirão, bronco das unhas dos pés à ponta dos cabelos que fazem estremecer qualquer lição de “hygiene”) – bem que ficava irritada com as delongas do padre Samuel. Preferia, naquela altura, bordar o seu mundo na ponta daquelas contas, do que ficar diariamente uma hora e meia a ouvir um homem inflamado, a berrar, panfletando política oca e as benfeituras do presidente da junta, apimentando calúnuas contra as saias curtas da filha da Mariquinhas e o diabo no corpo dos adolescentes. Para ele, os pobres coitados eram a encarnação multiplicada do demo.

A única palavra que despertava esta mulher desse embalo tão religioso de fachada, numa viagem pelos refúgios do desconhecido na penumbra no confessionário era: Ámen.
“Aleluia!” sentia um burburinho a formigar nas entranhas dos mais profundos desejos. Era visceral. Mas não se reconhecia ou sequer imaginava noutra condição. Fim de tarde. Antes da badalada das 18h e lá estava ela: genuflectida sobre a madeira do banco deteriorado. Inebriada com o incendo eclesiástico e aquele cheiro rançoso e azedo de madeira velha. Não podia sequer imaginar faltar ao ritualo. Imagine-se só o falatório do dia seguinte.

Desde pequena que a contagem das pequenas pedras era um passatempo, que ao longo da vida foi servindo para apagar mágoas em vez de pranto e reclamações. Esse choro existia sim: era endémico; mas desta forma foi refugiando a alma dos maus pensamentos e resguardando a paciência quando ela encontrava alguém na rua da aldeia que lhe ocupava a próxima meia hora com conversas sobre doenças intermináveis, idas ao médico, intrigas implacáveis da mulher do homem das sete saias; e má língua da tia Anicas – sobretudo quando na maioria das vezes referiam-se a nomes que ela não conhecia e, claro está, a conversa acabava sempre por se encaminhar para o sermão do padre Samuel. Certamente, ela anuia com a cabeça, ignata de que se tratara, enfim, essa mui nobre retórica.

Como nunca tivera tinha brinquedos, Cilinha habituara-se ao seu estimado rosário que guardava no bolso da bata azul-marinho - enquanto pequena - e agora no bolso semi-roto do casaco cinzento desbotado, puído e fora de moda, como tudo naquela aldeia.
Sentada na cama e irritada com a vizinha atrevida, a dona Cecília perdeu-se na conta das pedrinhas do rosário, por se ter deixado enlear em pensamentos que há muito não apareciam na mente de uma mulher cansada da intrusão das pessoas em vida alheia e desgastada pela solidão a que se encontrava na aldeia das pedras, onde a água canalizada chegou há pouco mais de um mês.

Ela bem se recordava dos rebuliços. O frenesim que não foi quando as torneiras começaram a jorrar a água que, anteriormente, era recolhida nas bacias e nos garrafões de plástico que os jovens da cidade traziam. A dona Cecília gostava da sensação da água a correr nas mãos. Uma descoberta que naquele dia a comoveu como nunca. Mais do que no dia em que a junta de freguesia, a mando da câmara municipal, lhe deu uma pequena casa de pedra no centro da vila que ela sabia ter duas janelas com vista para o campanário da igreja e uma porta de madeira polida de castanheiro. Ela conhecia o cheiro do castanheiro, sobretudo quando eriçado de ouriços. Aquele odor acre mas fresco, inundado de um amargor adocicado na garganta quando se exala o olor. Depois, ela sabia a textura com que ficava a madeira de castanheiro na porta se não fosse polida, como era o caso da sua.

Por isso, a dona Cecília dizia que a porta não ia durar muito tempo. Com mais dois Invernos como o do ano passado e lá apodrecia a entrada; e com ela o frio havia de entrar e trazer-lhe uma gripe como certa. Mas a mulher que conta as contas do rosário não gosta de pensar em saúde. Aliás essa foi uma palavra que desde sempre se ausentou do seu dia-a-dia. Ali nenhum médico fora alguma vez. Sempre que teve necessidade dos seus serviços ia na carrinha alugada da junta, que servia de táxi uma vez por dia, para ida e volta à cidade a 20 quilómetros. No total eram duas horas de viagem de terra incerta, vermelha, suada a contar com a volta, mas já se sabe que esse serviço acontecia com partida às 13h da tarde e volta às 19h. Contudo, para ter lugar na carrinha de nove lugares era preciso reservar com dois dias de antecedência. Por isso, ir ao médico era uma tarefa mais que difícil, senão impossível. Arranjar consulta dois dias antes e uma daquelas empreitadas que desfiam a paciência em industriais e obsoletos teares. Como saber se haveria lugar garantido para aquele dia ; não fosse a lista já estar toda preenchida para o mês.

E aventura trilhada de carrinha era, por si, motivo para ficar doente de ira e acicatado por desconfortável condição. Socalcos, pedras e silvas descuidadas no meio da estrada. Delongas ainda de um motorista improvisado, carcomido pela lentidão e desastrado como um míope prestativo. Esse era o Silva, o condutor, tinha apenas a carta de motociclos e à revelia da junta conduzia a carrinha, até porque era o único com alguma carta e veículos num raio de 20 quilómetros.

Depois dos socalcos, a carrinha fazia-se à estrada de alcatrão, inaugurada há pouco mais de três meses, porque o “então-candidato-a-futuro-Presidente-da-República-e-agora-actual” decidira visitar algumas aldeias do interior. Ora, como aquela aldeia constava da lista da autoridade máxima da República, a autarquia contraiu um empréstimos para que “aquela zona ficasse mais bem servida de mobilidade”, tal qual como constara nos jornais regionais. Mas foi mobilidade de pouca dura, já que o dinheiro das obras não deu para tudo: por obra e graça de uma entidade divina parte do dinheiro destinado para as obras foi usado para outros fins e na hora de pagar a factura - e de dar ordem de avanço da próxima etapa da obra - o saco financeiro, simplesmente, desaparacera sem deixar rasto, numa empreitada de grande finta ao jeito de um prendado futebolista.

O golo monetário estaria agora no bolso de alguém, sem relatos fidedignos, mas como constava nos boatos da região. Talvez até, segundo outras línguas igualmente de má índole e maliciosas – sabemos – por baixo da bata do padre. Mas schiuu, seria pecado pensar tal coisa! Segundo, ainda outras fontes de rumores descontrolados que, coincidentemente, nesse ano o presidente da edilidade construiu uma nova casa, com piscina, jacuzzi, sauna e outros luxos. As más línguas dizem que o resto foi para a viagem ao Brasil que a mulher do presidente há muito vinha a reivindicar num "resort" afamado. Mas isto são tudo informações que ficaram por confirmar porque as facturas do resto do dinheiro desapareceram, misteriosamente, e quando as entidades oficiais de investigação tomaram de assalto o edifício autárquico apenas encontraram o rescaldo de um pequeno incêndio que tinha havido precisamente no departamento de tesouraria e contabilidade.

Quezílias moralistas e infundadas à parte. A dona Cecília aprendera muito bem o silêncio e a importância das palavras de porta fechada. Ela agora apenas preocupava-se com as mãos molhadas no friozinho da água corrida como fios enovelados.
Sentir aquela macieza a deslizar pela pele enrugada, calejada de histórias e cunhada de segredos foi como tocar ao de leve a pele macia de bebé, única sensação parecida que esta mulher que conta pedras de rosário conseguia equiparar. Já mais calma, a dona Cecília resolveu desafiar a vizinha a contar, em voz alta, as contas do rosário. E se ela ficasse ofendida? É que a dona Cecília não era, assim, mulher religiosa. Era como que um refúgio na terra sem passatempos e sem outros quesitos para contemplar. Já nem bois via passar. Apenas se apegara ao rosário por ser o único brinquedo que desde cedo a acompanhou, porque lá de religião ela ficou farta com o padre Samuel, depois o padre António e mais o diácono Fernando - que tomavam todos o mesmo rumo enfadonho do discurso e pregadores de um moralismo que ela viu muitas vezes a ser quebrado.

Ela não acreditava em palavras exacerbadas e demasiado convictas do que deve ou não ser feito. Foi por aí que se consolidou o desinteresse da Cilinha desde nova, embora fosse obrigada até às cruzes finais da mãe a rezar em, voz alta de manhã, à tarde e nas vespertinas horas, mais o ofício de ajudar nos enfeites de flores do templo; na limpeza dos adornos; na higiene das toalhas e da feitura dos panos para os dias festivos. Só depois de mãe ter perecido é que a dona Cecília se deixou das tarefas que a prendiam por obrigação e se refugiou em casa alegando luto profundo, justificação pouco convincente aos olhos dos cerca de 50 habitantes desta aldeia perdida, que perdia jovens a cada ano que passava.

Agora esta mulher sentada na cama e com o rosário branco nas mãos pensava no desafio da vizinha. Assim podiam fazer as pazes e esclarecer o mal- entendido. Afinal, ficar melindradas por um simples erro de cálculo seria um acto pueril a que a dona Cecília não se queria entregar, embora estivesse realmente irritada com o facto da vizinha ter duvidado da sua palavra. Mas não podia ser, a dona Cecília não estava enganada. Fazia anos que ela contava as contas do rosário.

Virou-se. Volveu o corpo. E não retrocedeu no pensamento. Afinal, aquela amizade ainda era a claridade naquela penumbra humana. Saiu. Dobrou a esquina e saudou o homem de cheiro azedo que se sentava naquele mural ao entardecer, quer fizesse chuva ou sol. Agora com a leveza do andar, apesar de tudo, a dona Cecília apercebeu-se do cheiro quente da terra e que a humidade se começava a ausentar e pensou que estava um lindo dia de sol. Sentia agora o calor do astro diurno. Sentia a terra a secar por baixo dos pés e ouvia o estalar das pedras quando as calcava. Galgou ainda mais célere a rua e bateu à porta da vizinha. Amuada e empertigada a outra assomou à porta e a Cilinha, cabisbaixa mas convicente, pediu-lhe que contassem as contas do rosário. Ela assentiu e sentaram-se na sala para a cerimónia da contagem.

O ritual começou: uma, duas, três, quatro e assim por diante, cardinais enfileirados na ordem matemárica.
Já perto do final, dona Cecília lentificou a contagem, propositadamente, para ouvir a dicção da outra. Quando chegaram à vez do 58, estava quase desfeito o equívoco, reatada a amizade e quebrado o amuo corriqueiro que quase separou aquelas mulheres. Cecília percebeu. 58, 60! Explicou. Contou. A outra assentiu. Não se pode julgar quem não sabe contar. Cecília levantou-se. Pegou no rosário. Guardou-o na bata. E a caminho de casa rebentou o terço.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Civilização Ketchup

A revolução não está nos “soutiens”; nem no LCD, nem o vídeo matou a estrela da rádio; nem no iphone, ou o ringphone – que está “quase-quase” a ser a aliança pós-moderna dos casais disfuncionais – nem no preservativo...
"Are you ready"? A revolução está no Ketchup. “I like to put it on my food, because it has the taste I love”… É o embaixador da Globalização (What?). Foi com ele que aprendemos tudo sobre a (des)cultura norte-americana [ser uma cultura “fast-food” também implica ser-se cultura, dizem – como sou aculturada nada entendo sobre os meandros dessas epistemologias caricatas]. Depois do amaciador de roupa [Bem-vindo ao mundo do cheiro asséptico] temos o molho agridoce que transforma a maior porcaria num manjar dos deuses. Arroz queimado: ketchup; aquela massa bizarra do desastrado na cozinha: ketchup; sal a mais; ketchup, ketchup, ketchup...
Pormenor (I bet you didn´t know!): nasceu na China e foi levado por ingleses para os Estados Unidos. Hum? Não há canto que não lhe dê um lar, sentado em cima da mesa, para temperar com esse pitéu avermelhado: um-doce-amargurado-salgadinho-quanto-mais-melhor; mil e uma marcas e a unânime harmonização gastronómica: pão torrado com manteiga, acompanhado de chocolate quente para beber (o casal sentado ao meu lado, ontem à noite, bem o pode provar); no pão com salsicha; no molho da massa esparguete (o meu irmão é “especialista” nesta receita se quiserem orientação!!! ); na tosta com orégão; na sopa (sim, há quem, aliás há gostos para tudo e esses, sabemos, não se discutem)...
Ketchup, sim: com ele aprendemos a bater na embalagem para o molho escorregar melhor; e no fundo, fundo (não desse) ele é a solução para os problemas alimentares: "ah filho, não gostas de peixe cozido, vai lá buscar o ketchup"...
Um segredinho: respiramos propagandas silenciosas . E no fundo, no fundo: somos todos civilização Ketchup. Será que podes mesmo provar que não? Tenha medo, muito medo!

terça-feira, julho 29, 2008

Amor Ecológico

Zuan perdeu-a. Não tem memória de quando terá sido. Talvez tenha sido aos poucos, em pequenas coisas. Daquelas como se cria uma estria. Ou como o pó que se acumula. Um dia atrás do outro. Outro: e vinte e quatro horas depois mais um, daqueles que passam e nem damos por eles. E quando percebemos, há coisas que já estão lá atrás, como se nunca tivessem existido, ou talvez façam parte de um baú empoeirado que deixámos no passado, como se fosse, assim: “há muito tempo”. Ou talvez demasiado tempo para se ser infeliz. Ele ainda insiste assim, "incerto-e-certo", com emails espaçados de um mês, para limpar o pó. Zuan vive na certeza dele, daquele dia, um de cada vez.

Por isso, a certeza é das mais incompletas dúvidas. Chegou a três. Houve até a fase dos três dias. Depois de três meses, chegaram até a trocar um email de palavras poucas no espaço de 35 segundos. Arroubos do momento para dizer nada. Aliás um traço da personalidade da comunicação, "emailmente" falando! Um simples: “pensei em ti; lembrei-me de ti; recebi isto e pensei que te pudesse ser útil". Elos que não se perdem, mas também não se mantêm. Lik já se esquecia de lembrá-lo. Um esquecimento normal, comparado a deslembrar a insignificância de uma consulta do médico, só recordado quando a memória recebe o alerta com fragmentos que remontam até à sensação de que ele ainda existia.

Lik, amarfanhara, levemente, um dia após o outro, como uma reabilitação de vício, o papel reciclado onde (re)escrevera aquele sentimento que nunca foi um lago tranquilo. Antes um mar profundo, em que as lições de abismo eram insuficientes para lá chegar. Já tinha voltado à tona há muito tempo. Secara o corpo molhado. E Zuan já lhe tinha sugado as entrelinhas que reescreviam toda e qualquer interpretação de que poderiam mergulhar juntos em apneia porque o ar seria suficiente. Não cairia sem fôlego de novo. Estava ali pronta sem reciclagens sentimentais. Amor ecológico não funciona. Lik sabe-o. Zuan também.

Deram um beijo no ecrã. Frio. Vazio. Branco. Vá se lá saber o que o meio esconde. Ela sabia, agora, que fora exactamente um mal entendido da linguagem de vida que os arrancava de si. O que a boca sentia, não sabia dizer. Na verdade, não existia nenhum problema: há ligações que, simplesmente, se convertem ao arroubo do contexto e quando se tenta dar continuidade (arrepio!) ele já não existe. Como a caixa grande de madeira da bisavô que ganha caruncho e pó. Lik não soprou. Achou que era altura de espirrar e combater a alergia. Há histórias crónicas de que já se curou. Zuan, arrependido, percebeu que o que ardeu estava em cinzas. E quando soprados desapareciam no ar. Em pó!

segunda-feira, julho 28, 2008

Gosta de janelas sem cortina. De janelas, simplesmente. De dormir de luz apagada e janela aberta para ver a lua lá fora. Há dias em que é mais sol. Não acorda sem olhá-lo. Há noites em que é mais lua. Não adormece sem se aconselhar. Há outras fases assim-assim em que ele é mais luz, quer seja noite, quer seja dia, ainda que feche os olhos e deixe de vê-la, para imaginá-la. Ele é luz, simplesmente. É todas as janelas por abrir até fazer um dia, antes de parir a noite. Nunca se encontra, mas também nunca se perdeu. Fica suspenso na insónia desse sono, ou no fechar de olhos dessa dormida sem abraço, e do abraço sem dormida. Não importa. Ele gosta de janelas sem cortinas para imaginar que um dia poderia morar na lua, se é que ela já não mora nele!

segunda-feira, julho 21, 2008

Meio Homem


Dorme atravessado na cama. Cortou-a em três pedaços iguais e dorme no meio. Caminha em metade do mundo. Não sabe o que isso quer dizer, mas a sua vida não é deste mundo. Respira pela metade em espaços de cinco segundos, até 30. Seca a virtude para a tornar vício. Disseca os sentimentos para transformá-los em algo balofo, como a metade do seu mundo. Queria viver por inteiro, mas o cérebro só pensa fragmentado, em três partes exactamente iguais, para se ater ao centro. Sabe que o mundo não é mensurável. Mas o seu, sabe-o bem, divide-se assim: nessa vivência exclusiva pela metade. Na verdade, Z. sabe que esse mundo assim tão seu e tão esquisito, não anda tão longe desse mundo que dizem por inteiro. É um meio homem. Mas nunca conheceu um homem por inteiro!

quarta-feira, julho 16, 2008

Amanhecer. Flores no ar. Imaginar que o vento atravessa os galhos despedaçados. Janelas. Líquidas manhãs de nevoeiro entranhadas. Encolhem-se os pés. Arrastam o chão. E o mundo ainda está para nascer.
Entardecer. Telas amareladas. Folhas galgadas. Saltos em bancos de jardim. Remar.Luz áurea, liquefeita em heras tardias.
Anoitecer. Flores fechadas. Sonhar que o vento dorme por um dia. Mãos na cara. Olhos madrugados. Fazer um mundo. E esperar que ele amanheça um dia.

quinta-feira, junho 26, 2008

Save me!

"Magnolia" tem das melhores bandas sonoras! Daquelas que me segredam ao ouvido! Only If you could save me!
A senhora tem um novo álbum. Aimee Mann, aqui.

domingo, junho 15, 2008