sexta-feira, julho 07, 2006

Depois da morrinha impertinente, que entranha a respiração silenciosa do vento, o sol abriu a janela e espreguiçou-se sobre a cidade. Disse bom dia; e talvez eu não tenha ouvido, porque, a essa hora, já estava escondida sob a luz artificial dos barulhos urbanos. Sob o fervilhar inquieto da cegueira frenética que apaga as sensibilidades e as intuições silenciosas.

terça-feira, junho 27, 2006

© Vanessa Rodrigues



segunda-feira, junho 26, 2006

Sentir Urbano

Hoje, quero adormecer na calma desta cidade. Mergulhar, aos poucos, nos recantos de cultura. Nos suspiros dos reflexos urbanos, sobressaídos pela cor dos néons esfumados nos meus olhos. Quero sentar-me na poltrona negra do café antigo. Justificar os meus pensamentos com traços de História que respira. Observar o casal do lado que ainda agora começou a descobrir-se. Em meias palavras e pequenos gestos de cumplicidade. Quero pensar na calma da imagem que vejo. No sabor amargo da café que tomo. Hoje, quero deixar-me levar pelo sol que se espraia sobre a janela suja do autocarro. Olhar a cidade calma, por momentos, antes que volte a perder este sentir humano.

quinta-feira, junho 22, 2006

© Vanessa Rodrigues

Ouvi o portão de minha casa a bater. A milhares de quilómetros de distância. Ouvi aquela hesitação do ferro no chão, antes de encerrar. Ouvi aquele roçar trémulo da fechadura a tocar a presilha. E pensei que eras tu. Pensei que me visitavas. Que entravas para a hora tardia do café. Ou do vinho. Ou do cigarro fraco, mal sorvido e com cheiro a caramelo. Baunilha? Por instantes pensei que entravas no pátio familiar. Por momentos entendi que ias abrir a porta de madeira, mais sonante que o portão. Ou já arranjaram, lá em casa, o tremor empenado daquela porta robusta e irritante ao fechar? Aquela que arranha o chão e deixa marcas cunhadas com o percurso da abertura? É que por segundos sonhei que batias com aquela entrada habitual. E que depois da longa caminhada, me envolvias como sempre.

segunda-feira, junho 19, 2006

O Silêncio Nómada

Fechou os olhos ao som de uma cachoeira lendária. Fios de luz interferiam com os de água. As gotas corriam deslizantes pelo dorso de luminância. E imaginou os sons que aquelas cascatas de água concorrente faziam no silêncio do pensamento. (Ou do murmúrio do nada real). Assim, quis percebê-la em dois tempos. Em dois universos sonoros que se tocam mas não são iguais. Como se o hiato entre o mundo vivido, fosse ainda maior que o mundo pensado, cadenciado pela sonoridade que soa cá dentro. Tentou adivinhar, perceber, interpretar os diversos ruídos que se sobrepunham em simultâneo e diferenciados. O reflexo da água não o fez dispersar. E, no silêncio do pensamento, disse ouvir dezenas de ruídos escondidos que se estendiam ao longe, levados pelo fluxo daquela água.

sexta-feira, junho 09, 2006

Nações

© Vanessa Rodrigues

terça-feira, junho 06, 2006

Espião do Reino

Zufiro é espião ao serviço do reino lusitano. Anota coordenadas geográficas das frotas portuguesas para as passar à monarquia vizinha. Rouba documentos cartográficos. Plagia textos, desenhos e anotações de rumo. Esboços de lemes. Movimento de ventos. Descobriu que o norte geográfico não é o mesmo do norte daquela tecnologia de ponta: a bússola aponta o norte magnético. Segredo guardado. Que vai passar para os ouvidos concorrentes. Hoje surripiou uma carta de tipo náutico-geográfico – o Planisfério Cantino. Ele até conhece o cosmógrafo que o desenhou. É companheiro de horas de mar. Ele sabe que o profissional de cosmografia não é subornável. Por isso, embebeda-o para o roubar. Ele sabe que a conquista do Atlântico está próxima. Que o desbravar de mares é o próximo passo. Que a palavra descobrir mudou. Expandiu-se. Projectou-se por ecos marítimos.
Guarda o caderno de elástico gasto no bolso da jaqueta rasgada. Quando o abre, o bafo a sepia sorve o oxigénio de um fôlego. O cheiro é marítimo. Salgado.
Ele, alto, esguio e de traços faciais leves, contempla os espaços siderais como a areia sorve a espuma do mar. Agora de missão cumprida, caminha para a sala como se nada fosse. Na inconfidência do segredo e na serenidade da consciência que dorme sob os espinhos alheios.

segunda-feira, junho 05, 2006

Falei com o dono do quiosque da Praça da República. Perguntei-lhe se encontrou, alguma vez mais, aquela mulher que me contou que amou outrora - aquela que me confessou ser a mulher da vida dele. Ele respondeu-me: "Menti-lhe menina. Afinal descobri que não a amei em tempos. Descobri que ainda a amo. Mas resolvi a questão cá dentro. E pensei que não a quero ver mais. Torna os dias mais leves. E sempre posso ver o pôr-do-sol sem remorsos". Nunca mais o vi. Mas contam que foi feliz até que mudou a morada da vida dele.

sábado, junho 03, 2006

Refúgio


© Vanessa Rodrigues

terça-feira, maio 30, 2006

Em Timor-Leste

Custa-me pensar que tudo possa ter fracassado em Timor-Leste. Que o esforço tenha sido em vão. Que as centenas de vigílias; movimentos de pressão; movimentos políticos, humanitários, culturais; sofrimento; lutas sociais, bélicas; dor e amargura vivenciadas tenham sido um vácuo. Uma fortaleza minada. Uma peleja que rebola sobre o abismo. (Sonho por concretizar!)
Lamento o recrudescimento da violência, da insegurança e da instabilidade. Custa-me crer que a jovem democracia esteja doente. Acreditei muito nesta paz. (Acredito, ainda, apesar de desiludida!) Haverá muitas dívidas a pagar nessa sofreguidão e superficialidade política. Neste jogo de interesses mesquinhos que não entendo e desconheço, em rigor. Amargura-me mais uma vez pensar no inferno de quem nada tem a ver com a crise e mais sofre. Muitas vezes irreversivelmente.

segunda-feira, maio 29, 2006

Não digas Nada

TEATRO (IN)CERTO APRESENTA

"Não digas Nada" de Tiago Torres da Silva

Com:
Maria Teresa
Helder Magalhães

Encenação:
José Matos Silva

Cenografia:
César Filipe Costa

Técnica de luz e som:
Rita Fernandes

Adereços:
Dulce Amieira

8, 9 e 10 de Junho (21h45)

Auditório Horácio Marçal
Junta de Freguesia de Paranhos,
Rua de Álvaro Castelões, 811
Porto, Portugal
Há uma fome insaciável na ansiedade do poder. De que serve a hierarquia imposta? Ou a espontânea? Senão alinhar com o que Darwin dizia. Em nome dos mais fortes. Para que perdurem os mais fracos. Ou a ilusão inconfidente de que são os mais fracos!

quinta-feira, maio 25, 2006

Dúvida

© Vanessa Rodrigues
Sou da neblina que se dissipa, assim
Das manhãs incertas que vagueiam na encosta de luminância
Perdidas e irisadas de ventos vagabundos;
Do sabor silencioso que entra cá dentro;
Do toque diáfano que aconchega a caminhada;
E do tempo?
Do impasse e avanço corrido
Que pára; tropeça; soçobra,
E depois se ergue forte;
Do sorriso emancipado do pensamento;
Da ternura invisível que se deixa tombar;
Do progresso inusitado e estridente que sente ao passar.

quarta-feira, maio 24, 2006

Rosto Invisível

Deita-se na calçada imunda. Deixa a morrinha afagar o rosto seboso e percorrer as frinchas escondidas da barba que esconde a idade. Cobre-se com farrapos de várias cores. Mais negros de sujidade. O chão está escorregadio. O pó desliza, enamorando-se das gotas sensíveis. Ele tosse convulsivamente. Uma, duas e mais vezes. Sucumbido pelo frio de Inverno. Pragueja do tempo. Insulta as pessoas que passam e vivem melhor que ele. Esfrega a bolsa no chão. Acende o cigarro desfeito, em busca de um prazer momentâneo que o faça esquecer a displicência. E a esquálida sordidez do corrupio que desliza aceleradamente por ele.

terça-feira, maio 23, 2006

Divã de Insónia I

Ela caminha naquele canto da lua. Sentada no divã, onde outrora o sol tombou para afagar o pensamento fugidio. Afaga as páginas da história como uma vela duradoura; e que no fim se queda rugosa. Saboreada pela brisa e o pó sedento de oxigénio e repouso. Toca as palavras do livro remoto. Deixa deslizar a macieza das mãos na manta quente. Enrola-se. Aconchega-se a olhar a chuva que desce pelos vidros. Escorre apressada. Em fios encarreirados pelas brechas envidraçadas. Suspira, por vezes, mas logo desce, subtil.
As mãos estão agora enrugadas. O frio passa pelas frinchas das portadas de madeira. Range. Assobia como nos contos de infância. Profere vozes lindas. E a memória surge-lhe como bela. Expressamente bela! Reclina-se na filosofia do sono. Adormece. Enquanto o vento, lá fora, estonteia as árvores outonais e revolve as águas do lago sereno.

Miragem

© Vanessa Rodrigues

terça-feira, maio 09, 2006

Por Vanessa Rodrigues

É quando prefiro o silêncio da música
Que me reclino nas palavras que vadiam cá dentro;
Nas misérias fantasma que me assolam o sentimento;
No calmante trago que o vinho deixa com a saliva.
E o frutado álcool que estonteia e liberta.

É aí que percebo o lirismo do sonho;
A conquista desenfreada que me impele a suportar,
Que me justifica os caminhos como ténues atalhos;
Trilhos com rumo, e desprovido de ilusões.

Danço na pedra vazia, bem longe de todos.
Rio-me da felicidade. Do sentimento bom.
Da vibração incomum da flor da calçada.
Da luz do equinócio que me deixa respirar - finalmente!

E lá que sou feliz.
No mundo saboreado e de texturas diárias.
Onde aprendo sempre, a ver um som.
A imaginar uma cor.

Outra e mais outra!
Talvez sejam muitas. Como as palavras.

É nessa sede de saber.
Nessa consciência incessante de que o ciclo é curto
Na inconfidente pureza. Que sou feliz.

No silêncio da música de quem vê um som.
O percebe. E a ele se estende.

Como essa neblina que me afaga o rosto.
Que me reclina absoluto na poltrona viva da vida.

Nessa tela colorida.
Nesse cenário singular,

Onde pinto a preto e branco as cores de todo o mundo.
As gradações estonteantes das emoções;
escondidas pela expressividade do rosto,
a querença sólida de outra manhã assim.


sexta-feira, maio 05, 2006

Vanessa Rodrigues @ Copyright
Maio de 2006

quinta-feira, maio 04, 2006

Para lá, infinito!

O corrupio já quase não se ouve.
A azáfama já não estremece;
Já não melindra os passos apressados;
O burburinho já se percebe longe,
Na encosta daquela luz tímida que o silêncio absorve
Tão serena.
Quietude malandra. Adocicada e ébria.
Enternecida pelas causas comuns;
Ou os gestos palacianos da sagacidade ruim;
Do violento sopro da luxúria;
Dos gestos rebuscados;
Das expressões sedentas de lugares sem tema;
Balelas contorcidas;
Esquecidas em mentiras ternas;
Como a voz do vento fingido
Que me roça o cabelo e a calma.
Já soprei. Já embalei o sono da fome;
A justeza das palavras que ficam cá dentro e não saem
Para te abraçar, sem sorver o sonho
Apenas o instante do lance.
Aguerrido.
Estendido na fina memória .

Utopias I





Por Vanessa Rodrigues @ Copyright
Brasília, Maio de 2006

segunda-feira, abril 17, 2006

Lá no alto, a nuvem começou a enegrecer. Bufou o vento que a inquietava e escondeu-se na densa neblina que se fechava. As gotas quiseram entrar nesse manto carregado. Envolver-se no mosaico cinzento que, sorrateiramente, penetrava o ar dissipado.
Cá em baixo, um chuveiro constante inundava já o alcatrão. E molhava os pés que pisavam o chão. Os carros que passavam, impiedosamente, sob a estrada vazia chapinavam as poças na berma, bem junto ao passeio. Ela ficou molhada. A lama escorregava pela perna morena. Mais à frente, ele sacudiu o casaco encharcado. O cinzento do pano virou preto. Ficou pesado. Ele não olhou para trás para vê-la. Ela nem reparou que ele também estava alagado. E estavam apenas três segundos de distância.

quarta-feira, abril 12, 2006

Llorca/Nicole Graham

Llorca/Nicole Graham, "New Comer", 2001
Um Electro-Jazz que vale a pena!

Mãos Silenciosas

Sabes que as rugas das mãos são o silencioso toque da memória,
Que aquecem o esquecimento do passado.
E que o sobreposto relevo dos traços
São os caminhos esquecidos
Das linhas tortas –
Tracejadas por amargas cúpulas de pétalas - e
Folhas rugosas.
Verdes e envelhecidas,
Como o grisalho do teu cabelo vivido;
E a robustez silenciosa,
Escondida na grandeza do teu sentir;
E a sensibilidade do teu pensar.
Do teu querer.
Do teu silencioso e terno olhar,
Antes de adormecer a saudade;
E o abraço esperado, ansiando recompensa paternal
Desprendida.
Liberta e um pouco embevecida.
Inquieta de novas para criar outras raízes perdidas,
Soltas para outras sementes.
Ansiante de as lançar,
Despojadas, sofridas,
Mas mesmo assim despojadas de amarras;
Presas apenas pelo sentimento indeclinável
De me querer amar.

(Poema feito para o meu pai, dia 3 de Abril)

quinta-feira, abril 06, 2006

É difícil dizer que o mundo é bonito
Que o mais que perfeito é possível. E existe.
É difícil dizer que o mundo é verdadeiro.
E que esse mundo interior.
Aquele pequeno que nos move, é direito.
É mais fácil dizer que os pequenos silêncios são perfeitos.

quarta-feira, abril 05, 2006

Vulgaridades

De ar esbugalhado, roupas decadentes, cheiro azedo e rosto enegrecido do ar saturado, ele passa, todos os dias, no meu caminho. (Pretensiosismo meu. Ainda agora cheguei. Talvez seja eu quem passe no dele. E ele já lá estava). As mãos parecem velhos trapos desfiados, com relevos cunhados por um tempo prematuro que passou antes de dever. Luas demasiado contempladas. Estrelas demasiado gastas pelo olhar, com o céu como tecto. Pequenas lâmpadas acesas que só se apagam com a cortina de luz que sobe, em passos lentos, com um olhar solar. Sempre que passa, pelos passeios imundos, de cor ferrugem e oleados pela sujidade, fala em voz alta, palavras fechadas. De desentendimento. Desabafos de um mundo próprio. Que ninguém inveja. Degradante. Triste. Revoltante, também. Mas estupidamente urbano e que fazem do dia-a-dia uma parvoíce de vergonha, mutilada pela vaidade. Quem passa tem medo. Receio de imundice. Ataque súbito, calejado de provocação. Não se sabe o que ele diz. Nem quem é. Mas apenas que passa ali, todos os dias de manhã, tal como qualquer um de nós, rumo ao trabalho. Rumo ao trajecto de um dia imposto. Talvez vergonha dele seja o sentimento. Misto de culpa e de nada.

terça-feira, abril 04, 2006

As motivações da alma

Jair gosta de showfight. Erineu gosta de Machado de Assis. À noite, Jair sai para a discoteca, enquanto que Erineu fica, ao som de Lugansky, a ler uma crónica de Zuenir Ventura.

quinta-feira, março 30, 2006

-A Igreja do Diabo-

Machado de Assis conta, que certo dia, o Diabo, frustrado com séculos de desorganização, ausência de regras, cânones e rituais - embora os lucros fizessem roer de inveja as mais cotadas multinacionais - resolveu fundar uma igreja. Assis, que na altura terá interrogado o Diabo, cita os preceitos da criatura (que neste contexto, note-se, não tem na adjectivação atribuída, um olhar depreciativo, mas assume, pelo contrário, condição privilegiada): "Enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo".
Depois de longa e propalada campanha de marketing para angariação de novos fiéis o Diabo viveu anos de "aparente" sucesso e regozigo com a nova manada de seguidores. Mas um dia, por acaso do decorrer da linha do dia, o Diabo descobriu que muitos dos fiéis professavam outras fés, rituais e orações às escondidas. Pasmado. Regressou ao céu a desafiar o deus do bem e exigir explicações. Esse, ciente e vacinado das contradições humanas, falou-lhe dos paradoxos inexplicáveis que regem os pensamentos. Desolado e enraivecido, o Diabo, decidiu embarcar numa longa viagem. E deixar à mercê a igreja fundada para procurar um especialista em frustrações da raiva. Após anos de busca, nada encontrou a não ser enganadores que ele bem conhecia. Mais tarde, decidido a recuperar do trauma, procurou um psicanalista que lhe disse que não há cura para entender as incoerências da humanidade. Mas se um dia algo próximo fosse descoberto, ele, o Diabo, ficaria desempregado eternamente. Frustrado, mas ao mesmo tempo aliviado, o Diabo entregou-se às terapias zen e uns preparados alucinogénios. E depois, esquecido dos traumas da incoerência voltou aos cabarets carnais e às ruas da amargura, para se recuperar para os anos de incongruência a que ficou assolapado para sempre.
Texto baseado no conto de Machado de Assis, A Igreja do Diabo (Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II)

quarta-feira, março 29, 2006

"O som dos sapatos" (João Afonso)

Penso em ti a noite inteira
numa insónia não vencida
seguir sozinho uma ideia
os lugares da tua vida

Na penumbra a luz dum verso
que deixou de ter sentido
dominó, enciclopédia
horas de um tempo perdido

A tua mão a passear
tomba o aparo, gesto de espera
ventos de guerra,
dado a rolar ecos dispersos ,"Rosas de Ermera"

O homem que passa subiu a montanha
caminha sem pressa, sem santo nem senha
o som dos sapatos, a linha da vida
a cor do tinteiro, derrama a saída

A noite já desceu à terra
no seu ventre se enrolou
pousou na melancolia
de um dia que já passou

Já te disse o que não digo
numa verdade mentira
há um som breve que vive
numa palavra que gira

Composição: João Afonso Lima
(http://joao-afonso.letras.terra.com.br/letras/490603/)

Dias de Chuva

Ao fundo, um cenário de chuva alaga a rua. Os carros passam em ziguezague e chapinam uma poça imunda. Derrapam.
A mulher do passeio. De guarda-chuva erguido. Mala ao ombro e saco de lanche na mão esquerda não repara. Fica encharcada. De lama viscosa. Água choca. Os olhos estão tristes. O rosto nublado. A alma furiosa. As rugas mais vincadas. O lanche não sobrevive. O saco encharcado molha o que está por dentro. Mas ela sabe que sonho continua limpo.

sexta-feira, março 24, 2006

"Na Inglaterra, hábito é de não trocar cueca" (quê?)

Segundo uma nota do Estado de São Paulo de hoje, um em cada dez ingleses usa a mesma roupa interior durante três dias seguidos. O resultado foi apurado por uma professora de marketing de moda da Manchester Metropolitan University. Mais: 5% da população admite que veste as cuecas do avesso, para que sejam usadas mais um dia. Mas há variações regionais, por exemplo 34% das pessoas em West Midlands (região centro-oeste da Inglaterra) passam perfume na roupa interior para que cheirem melhor. Já estou a ver as vendas das lojas de lingerie a entrar em crise. Ou pior: e se o hábito vira moda na Europa?

quinta-feira, março 23, 2006

A cidade em progresso

A cidade mudou.
Partiu para o futuro
Entre semoventes abstratos
Transpondo na manhã o imarcescível muro
Da manhã na asa dos DC-4s

Comeu colinas, comeu templos, comeu mar
Fez-se empreiteira de pombais
De onde se vêem partir e para onde se vêem voltar
Pombas paraestatais.

Alargou os quadris na gravidez urbana
Teve desejos de cúmulos
Viu se povoarem seus latifúndios em Copacabana
De casa, e logo além, de túmulos.

E sorriu, apesar da arquitetura teutaD
o bélico Ministério
Como quem diz: Eu só sou a hermeneuta
Dos códices do mistério...

E com uma indignação quem sabe prematura
Fez erigir do chão
Os ritmos da superestrutura
De Lúcio, Niemeyer e Leão.

E estendeu ao sol as longas panturrilhas
De entontecente cor
Vendo o vento eriçar a epiderme das ilhas
Filhas do Governador.

Não cresceu? Cresceu muito! Em grandeza e miséria
Em graça e disenteria
Deu franquia especial à doença venérea
E à alta quinquilharia.

Tornou-se grande, sórdida, ó cidade
Do meu amor maior!
Deixa-me amar-te assim, na claridade
Vibrante de calor!

Vinicius de Moraes

quarta-feira, março 22, 2006

Há qualquer coisa que entranha, assim, o sentimento.
Um sopro revolto de nuvens carregadas de branco silencioso.
Será que ainda virás?

terça-feira, março 21, 2006

-Biscates I-

Ericeu é professor. Mas só em tempo parcial. Pergunta-me se Camões é venerado pelos portugueses. Questiona-me se Fernando Pessoa é um nome conhecido em Portugal. Se é estudado. Se as pessoas o conhecem. "É que na minha terra todos os conhecem. Na minha terra são os expoentes da Literatura Portuguesa. Na minha terra é Literatura obrigatória. Na minha terra ninguém sabe muito de autores brasileiros".
Ericeu licenciou-se em Literatura Luso-Brasileira e Anglo-Saxónica. Mas Ericeu quis tirar outro curso. Estuda Direito. Dar aulas tirava-lhe muito tempo para estudar. E ele queria tanto continuar a estudar. Ericeu faz, por isso, biscate. Dirige táxi. Tira mais ao fim do mês, como afirma. Tem mais tempo para estudar. E dá aulas em tempo parcial. "Mas não compensa", justifica. "Quem sabe no próximo ano vou a Portugal"", diz. "Mas só se continuar no negócio do táxi. A leccionar não dá nem para ter carro".

sexta-feira, março 10, 2006

Se o pensamento falasse, diria que o paraíso está aqui, frente aos olhos. Se o pensamento falasse, diria que a distância amacia a monotonia e traz à lógica, um amargo sabor de exclusão.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

"Ei, me deixa matar ele. Também sou bandido, cara!"
Cidade dos Homens, Volume 2, por Fernando Meirelles.

Até aqui nada de especial. Não fosse a deixa proferida por um puto de 10 anos. Mas, também, até aqui tudo normal, parece!

domingo, fevereiro 19, 2006

Passam cigarras, no caminho aflitivo de terra vermelha que ele esqueceu.
Passam fios de luz nas portas velhas do casarão altivo, que lá longe o pó corrói.
Rompem-se as correntes do portão estanhado.
Estilhaçam-se os vidros frágeis com o roçar do vento nas frinchas debilitadas.
Quebra-se o brasão. Ardem as folhas. Secam as árvores.
Resta-lhe o jardim sombrio; assombrado pela memória do sonho que perdeu.


sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A longevidade da Justiça

Joaquín da Silva, 532 anos.
Manuel Fonseca, 123 anos.
João Almeida, 632 anos.
Marília José, 345 anos.
Ana Pais, 123 anos.
Frequentemente vejo nas notícias (sobretudo brasileiras) as sentenças atribuídas. Com centenas de anos a reboque. Este acumular de anos de condenação faz aumentar o tempo de cativeiro.
Será que o cárcere é o elixir da imortalidade?

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Deixo em teus braços doces sabores que os odores transpuseram.
Deixo em teu abraço a lenta ternura que o calor soprou.
E ao badalar da aurora deixo o suspiro suspenso até que volte.
Na margem do rio estagna a pedra aflita.
Na corrente apressam-se gotas ansiosas de transbordar no mar.
Já avistam a foz. Não sabem se lá vão chegar. Até podem com isso sonhar.
Mas no regaço leva o rio, centenas de lágrimas saradas.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Perdas materiais!

Perdi um saco na Fnac. Ou terá sido noutra loja qualquer. Não sei! Apenas sei que não fiquei preocupada. Coisas banais. Uma mochila e uma camisola! Sim, gastei dinheiro. Não voltarei a comprá-las. Não vou gastar mais dinheiro. Fazem-me falta. Mas remedeio-me com outras coisas. E depois? Não fiquei preocupada. Rio-me perante a minha distracção para as coisas materiais. Para umas pechinchas que não recupero. E depois? Sei que me ri. "Oh, perdi um saco na Fnac (ou noutra loja qualquer, não sei ao certo)"!. Amanhã irei perguntar. Com calma. Se as não recuperar, não sei. Apenas esquecerei. Deixa lá. "Perdi"- direi. Está bem assim. Gosto assim e não faz mal. Deixa lá. Já passa!

domingo, fevereiro 12, 2006

Hoje acordei com a sensação de sono rápido. Dormi depressa. Sonhei célere. Passei o sonho (sim o sonho) em claro, apesar de os olhos terem caído em cerramento soporífero. Pensei num alinhamento sem sentido. E o claro do dia já me despertava os olhos. Reclamo o direito de não ter de dormir. Porque não me inventaste para não ter de adormecer?

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Eu que só queria o silêncio, Trovador!.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A imagem do Garcia

O Garcia ainda não percebeu os lados do espelho. As imagens reflectidas. Os meandros silenciosos que se quedam na sombra. Os contornos do seu rosto. Ainda não percebeu se é luz ou harmonia. Se violência ou calma as rugas que lhe correm pela face. Ele ainda não sabe. Ainda não descobriu a pura magia. A verdade escondida que lhe quebra o olhar. (Se se detém em pertinência. Ou esquece). O Garcia não sabe se é ele reflectido. Ou outro. Não se reconhece. Não se revê na luminância espaçada. No baço de um vidro fingido e que a ele não reflecte. O Garcia não entende. Ele queria ser outro no espelho. Queria ser a imagem que tem dele e não o rosto que aquele esgaçar de fragmentos na chapa de cristal estanhada espelha. O Garcia não gosta de espelhos, está visto. Não gosta da simetria dissimuladora. Dos pormenores da fealdade. Do ideal vazio que um objecto como aquele delata. O Garcia acha os espelhos fingidos. Injustos expositores que perscrutam a alma sem luta.

Crónica de um mal-entendido

Disseste que sim e eu expliquei. Anuiste e eu reflecti. Deste a entender que três e quatro são sete e eu suspirei. Riste-te. Estendeste a conversa. Percebeste.Foi o que disseste. E não ia haver problema. Tudo era explícito. Entendível!
"Não há problema. Tudo bem".
E quando assim se fala não há nada por explicar. Não há mais nada a acrescentar. Mas na hora de pôr em prática o entendimento, tropeça-se nas palavras.
E não havia mais nada a explicar. O erro foi de quem explicou e não de quem não percebeu. Fui eu que expliquei. Desfiz o mal-entendido (desfiz?). Mas rompe-se sempre a conversa. Desgasta-se as palavras.
As tentativas de explicação (vezes repetidas). Um meandro de dinheiro. Uma pequena coisa. Um nada sem realce. Mas o desgaste lá ficou. O mal-entendido perdurou. Deixou marcas. Queima a vontade e a legitimidade. Talvez rompa com a ligação. Lá ficou.
Explica-se. Reformula-se a explicação. Tornamo-nos chatos. A pessoa não se lembra. Diz que não foi isso que entendeu. Mas anuiu. Disse que sim. Riu-se. Estendeu a conversa para além do necessário. Isso significou que tudo ficou claro. Mas não.
E porque não falávamos na altura do mesmo? Onde estava o descodificador da compreensão além das palavras? Um erro de entoação? Problema com a justeza das palavras. Do certo e do incerto? De tudo e de nada? De mim e de ti? Do valor de um mal-entendido? Do peso de um tropeção?

sábado, fevereiro 04, 2006


Outubro, 2005 - Copenhaga (Dinamarca)

Por Vanessa Rodrigues

Pela continuidade do dia

Não quero que a madrugada me roube o pensamento mais uma vez. Mas é quando o dia se esvazia que as ideias começam a fazer sentido. É no manto negro e no silêncio lá fora que tudo faz mais sentido. Se mais lúcida? Não é verdade. Talvez mais sedenta de vida.
Para quê esperar que a escuridão adormeça. Passe. Porque não a continuidade do dia?

domingo, janeiro 29, 2006

Pode ser um pedaço de mim a janela que range;
Ou um fragmento da voz o crepitar da fogueira cá dentro.
Pode ser um assobio do pensamento o vento que voa;
Ou o abraço esquecido que a minha alma adormece.

sábado, janeiro 28, 2006

Corre em blues uma nota de Jazz. Lenta, suave, crispante e
negra. Viaja na memória ao soar o piano. Entranha-se no pensamento ao sopro
da
trompete. Jaz lindamente no meu corpo e deixa-se por lá ficar.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

[-Uma fenda nas horas rendidas-]

Esta noite deixei o silêncio lá fora para te escrever. Sussurrei ao ouvido do tempo que vi a terra molhada pela neblina e uma fenda na porta das horas. Esperei! Ainda pensei que a tinta corresse, mas o branco da folha causou-me arrepios - calafrios inexplicáveis. A boca secou. O espaço minguou. A minha mão deixou-se estar presa ao lápis. Apaixonou-se assim e não mais o quis largar. Hoje recusa-se a teclar no virtual. Não a censuro!

terça-feira, janeiro 10, 2006

Pedaços do Tempo

Ocupamos pedaços do tempo a fazer o que mais gostamos. Usamos grande parte dele a fazer o que nos é possível para sobreviver, de resto. Quem disse que a profissão é aquilo que fazemos em tempo completo; restituídos de um bem pecuniário? É esse paradoxo que nos preenche e simultaneamente nos oprime. Mas é ele que me faz feliz.

sábado, janeiro 07, 2006

-A Casa de Garret-

Fica em pó...mais um legado do Romantismo português a favor do pedantismo da economia e das razões da ganância. Não há quem puna esta parvoíce. Porque é que me sinto tão pequena na voz da (suposta democracia) para me insurgir contra isso? Obrigada, Democracia (de elite). Pura ironia!

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Enquanto tudo for e eu não me deixar ir. Enquanto a razão não deixar de existir. Enquanto o mundo não deixar de ser um cenário pintado para que eu acredite. Fecho as mãos ao manifesto, às fábulas contadas; e à evidência encenada. É porque não me rendo!

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Talvez seja o vazio da partida que me faz sentir assim. Ou a falta de dinamismo. "Talvez!". Ou seja da carência do último ano. Do tudo e do nada vivido. Talvez seja da incógnita. Ou de não saber o que escrever, todos os dias, quando na cabeça tenho mil e umas histórias alinhadas, prontas para serem sacudidas para o papel, ou para a tela do computador. É, talvez seja de tudo isso, ou do nada. Talvez seja de mim! E isso, minha gente, nem a tecla apaga.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

E ele sorriu. Menos não podia ser. 2005 salda-se um ano bom. Mais do que próspero, produtivo! Por tudo isso ele percebe que é mais do que bom. E 2006 - quem sabe! - poderá ser ainda melhor. Vai abrir-lhe a porta, com certeza!

sexta-feira, dezembro 23, 2005

-Aquele debate televisivo-

Não consegui distinguir aquele debate televisivo de um ringue de boxe. Talvez o saco fosse a cara de um dos dois. Ou o saco fosse balofo pela ausência de valores e dignidade; e aí as mãos severas de ambos os atacantes deslizaram no tecido rugoso da artimanha e perderam-se no vazio do ar. Como podem querer governar um país se nem tento na língua têm?
E ali se perdeu a réstia de dignidade deste país. (Sim, eu ainda pensava que a tínhamos)!

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Uma boca vazia no ar perde perdão. Estende-se no ar com a devassidão indigente. Luta pela espera paulatina. Cessa. Não quebra e pede. É uma boca devastada. Esquecida em vazio humano de nada, de tudo e do intermédio que não pára. Será que podes avançar? Sem o perdão? Será que podes ceder à doce lassidão da injustiça?

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Instante de Desejo

Não pode olhar para o céu. Chegou com atraso ao canto do mundo porque se sentiu abalado com o sopro indelével. Agora não suporta contemplar, bem alto, o azul celeste que o faz lembrar a imensidão esquecida de um instante de fervor.
Senta-se. Cruza as pernas no chão. Roça a palma delas em cada textura da areia fina; como se cada fragmento fosse um fio invisível de desejo escondido.
Esquece-se. Toca com receio a brisa que vagueia pelo rosto. Mas recusa-se a olhar o alto, porque a vergonha o comove. Teme que nunca mais possa ter um pequeno - por mais ténue que seja - instante de desejo.
Não se levanta. Responde com murmúrios à melodia desenfreada que o vento sussurra. O cabelo esvoaça. As pernas estão dormentes. O suor nervoso corre-lhe pelo rosto, jorrando com troça pelos poros secos de ardor, amargurados pelo ar.
Só pensa, não sente a frieza do tempo que faz. Apenas se entrega à dor reflexiva que se torna, depressa, uma explosão emotiva de sarcasmo.
Ri, nervosamente! Pára. Levanta-se.
Essa noite beberá uma garrafa de rum. Adormecerá as mágoas com a sonolência do álcool. Amanhã acordará e vai continuar a ignorar a cor do céu. Porque, por ora, o véu da aurora o enfeitiça e ilude com promessas adiadas.
Mal ele sabe que está preso a um instante desejo que jamais poderá sentir. Talvez assim; quem sabe um dia; entenda o que jamais alguém interpretou!

quarta-feira, novembro 30, 2005

A Esquizofrenia da Virtude

A Virtude (V.) não saiu de casa de manhã como habitual. Rendeu os seus gestos delicados ao pudor da preguiça. Como se deixou ela enredar assim, num acto vadio que não é o seu? Parece que ela é de medidas compassadas e trejeitos calculados. E nunca se deixou ela levar pelas balelas da perfídia e as críticas cobiçadoras das vizinhas Intriga e Má-Língua. Mas, daquela vez, a Preguiça usou de artimanhas maiores e seduziu-a com as técnicas apuradas- mesmo vampíricas- da publicidade desenfreada ao ócio.
"Mas cara Virtude, para seres ainda mais virtuosa não há nada como um sono de beleza prolongado para não danificar as rugas do tempo e o cansaço da perfeição"- alegou a Preguiça.
Ora visto que o Tempo está cada vez mais moribundo, e o cansaço padece de Alzheimer (esquece-se frequentemente que se cansa!) a Virtude achou por bem dar ouvidos à Preguiça - que se apresentou naquele dia toda aperaltada de falsos fundamentos dissimuladores.
Assim, rendida às técnicas do marketing e do consumismo, a Virtude, julgando ficar mais formosa em intelecto, decidiu quedar-se em casa...
Ao cair da noite. E sem que nada acontecesse, ela explodiu em pranto, perante o riso cínico da Preguiça que, naquele dia, se dignara a visitar V.
Depois, decidiu ultrajar-se e demitiu-se do cargo "imortal" a que alguém, um dia, a incumbira. Talvez por isso a Virtude tenha deixado de dar notícias. Está num centro psiquiátrico há anos. Motivo? Sofre de esquizofrenia crónica...Bem crónica!

segunda-feira, novembro 28, 2005

Incompetência?

Vamos falar de moralismos. De exigências, de ineficácias ou talvez de incompetência. Quando me exigem rigor, responsabilidade, eficácia e (correndo o risco de me repetir) atitudes exímias, costumo colocar os dois pés em pausa, sem avanço. (Renitente e com suspeitas). Mas perante factos não há argumentos e avancei-os...até que hoje dei um salto em retrocesso.
Como é possível que uma instituição - supostamente "competente e rigorosa"- tenha tido a lata de lançar um banho de água gelada por cima de nós?Não posso. Não tolero... Que moral tem para me exigir rigor se nem ela sabe responder a perguntas básicas como temas de trabalhos, horários...Deixando-nos assim "enjaulados" e estupidamente pueris... Vi logo que havia fogo de vista e não passa de uma casa com "sapatas" (denunciem srs engenheiros) de barro...
Van

quarta-feira, novembro 23, 2005

Foi com voz doce que ela o embalou. Escorregou depois num desejo sentido e confessou à Lua o enigma do olhar furtivo. Com passos de fada, deixou deslizar a mão de seda no rosto dele. E num suspiro sorveu-lhe o mundo num segundo.

terça-feira, novembro 15, 2005

E ele embalou-se pelo brilho da lua e enfeitiçou-se pelas estrelas do olhar. Era a voz fugidia que o esquecia; e sorvia o momento com o respirar.

domingo, novembro 13, 2005

-Dias ténues em compasso apressado-

Há dias em que a noite é um fio ténue que passa pelas encostas escarpadas do olhar e ao relento da memória. Outras vezes, é o dia que passa como a noite, numa sessão de insónias em contra- luz repentino.
Estes dias, passam assim: entre a incerteza do dia e a velocidade da noite - sem descanso, ansiedade e cansaço. Estes dias não são dias: apenas meras noções do dia, da vida e de um caminho incerto em que alguém nos guia como pequenas marionetas. Apenas trilhos espaçados de realeza indistinta e sabor insípido.
Hoje os dias não são luz, nem trevas, nem nada. Apenas vivências cimentadas em tectos artificiais, oxigénio manipulado e cadências encurtadas em melodias da palavra. Só o pensamento consegue viajar na estrada de fora, escolher a luz que o toca, o tempo que faz, a melodia que o embala. Talvez seja esse o embalo fugidio: o tecto vazio da liberdade do mundo.

sexta-feira, novembro 04, 2005

-Inquirições da Alma-

Quis dona Júlia saber por que razão havia ele saltado fugazmente do interior do quarto, ao relento do sabor sombrio do tempo e à parca luz da madrugada. Mas afinal quem no seu perfeito juízo (e por que pretensões) sairia do calor do leito, aconchegado e ternurento para embrenhar-se no gelo?
Mais queria ela saber das razões por que dom Rigolletto saira ornado nas suas melhores roupas, perfumado com aroma de jasmim e lenço alvo no bolsa da jaqueta, como quando saía para os bailes nobres dos Castelhanos del Sario - a casa ao lado do grande lago que premeia o jardim de Aurélia (a virgem).
Está claro (seria?) que podia tratar-se de um caso amoroso clandestino. Um vício entranhado que falava mais alto. Será que dom Rigolletto deixara as malhas do jogo apunhalá-lo pelas costas? Ou, então, Dom Rigolletto andava inclinado para negócios obscuros de tráfico de rapé; ou lenços de seda?
Mas ele estava mais que ornado. Não saira sem a sua máscara viril. O pó branco que lhe cobria a cara. A cabeleira barroca, branca, que lhe escondia o cabelo. O sinal petulante que lhe adornava os contornos do lábio. Dom Rigolletto saira aprumado. E isso, ninguém contesta. Nem dona Júlia. Que horas antes se deixara enternecer nos braços gentis e másculos do italiano emprestado. (Rigolletto não era o nome de família).
Mas afinal ele seria artista? Contrabandista? Poeta boémio de ilustres casas de meretrizes? Ela não sabia. Por isso prometia vigília certa para um interrogatório apertado, sem tréguas, nem piedade. Ela não tolerava a traição. Nem sequer imaginava desculpa plausível para tal escape ao anunciar da aurora.
Foi durante estas e outras divagações que a dobradiça da janela guinchou. E com ela eis o foragido da noite; que em pézinhos de lã, ensaiava uma entrada (triunfalmente silenciosa- tentava!) na sala por onde havia saído.
Dona Júlia aguardou o final do exercício de destreza do amado. Depois inundou a sala com a luz de dois candeeiros de petróleo, para mostrar a sua presença (fúria e desagrado). Pálido (o pó branco assim o queria) dom Rigolletto arregalou os olhos e depois perdeu-lhes o domínio e desatou num pranto desafinado, soltando graves e agudos, sem grande consideração pela harmonia musical. Confessou-lhe a tormenta. Afinal havia desculpa. Contou-lhe as perdições sentidas e as paixões da alma.
O inquérito durou mais de duas horas. A neurose estava confessada. E dona Júlia concedeu-lhe o desejo de sair todas as madrugadas, sem inquirições da alma.

terça-feira, novembro 01, 2005

-Le soirée eterne-

Il ya un subterfuge énigmatique dans le rêve de Marie. Il s'appelle éterne moment que fait de la vie une constante mise en scène.
Vanessa Rodrigues

sexta-feira, outubro 28, 2005

- O tavão aniquilado-

O tavão foi surpreendido pela teia mal feita da aranha preta e fina de pernas. Essa rodeava o interior da secretária moderna e atafulhada de papéis, ornada por objectos menos importantes. Foi, então, o insecto enredar-se nas malhas viscosas daquele fio insípido e visível à luz, expelido com mestria pelo labor do aracnídeo com economia absoluta de a casa lhe servir de armadilha para uma refeição recheada.
Às primeiras vibrações do almoço requintado, apressou-se a aranha magriça - e com tiritar acobrático entre as linhas ténues da casa- a ver que "peixe" lhe tinha caído na rede. Quem sabe nesse dia a dona aranha não teria farnel que sobrasse para convidar as amigas desdenhadas para o ansiado banquete. Afinal a aranha castanha, peluda e com casa em retalhos (e que vivia na estante de cima- mesmo junto à secretária) há muito que a criticava pelo seu mau feitio anti-social. Quem sabe se não era desta vez que ela se vingava das invectivas verrinosas que lhe lançavam as más pinças de aranha.
Pelo balançar da teia bem que a magriça se podia regozijar. Bem que ela andava de um lado para o outro. Ia e vinha. O tavão não morria. Lutava pela vida. Lutava atarefadamente para se libertar das linhas pegajosas daquela teia. Estava numa redoma. Lutava. Espezinhava. Esperneava. Zumbia. Balançava a teia até se enrolar apenas num fio. Uma forca. (Quem sabe?). A aranha inquietava-se. Não podia perder a presa. Não podia deixar escapulir-se um petisco daqueles para dar e vender.
A luta do moscardo estava a mostrar-se uma peleja incansável. A aranha desesperava. Até que de repente, num último fôlego o moscardo soltou-se, perante o olhar incrédulo da magriça que nada mais podia fazer do que lamentar um banquete adiado.
Já no chão, o moscardo descansava. Tentava recobrar o fôlego perdido.
Num jeito voraz o chinelo da Rosália bateu uma, duas, três vezes para aniquilar os movimentos do tavão. Não houve banquete, não houve vitória de salvação. Venceu o chinelo na inutilidade da peleja.

quinta-feira, outubro 27, 2005

[-Uivar da Aurora-]

As árvores não dormiram esta noite, sacudidas por um vento trôpego, insatisfeito e vestido de manta de tropel para arrebatar sentimentos sonulentos. Esta noite, enraivecido, o vento soprou lamúrias escondidas, neuroses recatadas e fez ranger as dobradiças do céu, da terra e da água oceânica. Por causa dele, da inquietude e tormenta portentosa de rajadas fugidias e secas de amargura, os cães acordaram estremunhados e uivaram com ardor singelo ao desconhecido. Quem sabe o medo arrebatou os sonhos enternecidos. Quem sabe balançaram na memória do temor ancestral, denunciador de momentos já passados. Seria um prenúncio de episódios de outrora? Foram estes sons que me acordaram de um sono lento; embevecido e mergulhado em ternura quente. As frinchas da janela ganiram e rangeram de impulso. As persianas corridas debateram-se com a força violenta da revolta da ventosidade e com o mergulho aflito das gotas da chuva, enegrecida e sufocante de abrigo. Esta noite, ao uivar da aurora, os cães latiram a melodia do sufrágio da alma canina- a única expressão livre que os homens não abafam (por enquanto). Puderamos nós latir assim ao clamor da aurora e, por certo, dissipar a asfixia das opressões.

quarta-feira, outubro 26, 2005

- O alter ego do capitão-

Ele, que por caminhos desajeitados sempre soube a rota da sabedoria e sabia, por certo, rejeitar a perdição e o encantamento, viu-se desprovido de respostas plausíveis ao calor do corpo juvenil da mulher de saia branca, a quem o vento presenteava com cerimónias eufóricas. A brisa tornou-se ventosa e levantava a saia alva da ruiva, com lábios de doce ternura e fatigadas olheiras de insónia. Os sonhos cansavam-lhe os pensamentos, mas nem por isso o Garcia deixou de lhe prestar as honras de galanteio e os olhares romanescos de um Dom Quixote ternurento e enfadado com os pretendentes da bela. De adormecida nada tinha, mas deixava escapar um movimento sonolento cada vez que o capitão lhe oferecia um colo lisonjeador, mas atrevido.
Reza a mulher de contas negras, que a bela de saia branca e liga preta - farta em peles de peito e aprumada de pernas e ancas - não se deixou perder de amores pela frugalidade de um amor à capitão, que sem porto e guarida, vagueava itinerante pela rama, sem raízes. Mais conta a mulher de contas negras, sabida e envolta num véu rendado, que usava para esconder uma beleza casta, que a rapariga de saia branca se apaixonou por dom Liberto, o pescador, homem da terra e irmão do capitão.

segunda-feira, outubro 24, 2005

-Partida-

Não fales de voz lenta que o sentir já vem tarde. Não te enganes com as respostas aprumadas das perguntas estudadas. Os jeitos conhecidos. Os olhares semicerrados dos valentes calistos que encerram a mão no bolso do transeunte. A Serra estarrece lá no alto. Descansa em breves murmúrios de espanto aborrecido. E agora apenas podes mudar o vento que sussurra poderosos queixumes abalados. Agora apenas podes descansar na casta manha do lobo encoberto com voz de cordeiro melancólico, atenuado pela lua tombada.

segunda-feira, outubro 17, 2005

- O quarto de Júpiter-

Já passa das 4h da manhã. A sombra descansa na janela. O vidro esfumado está ressoado, porque a temperatura desceu efusivamente. O quarto, esse, permaneceu acarinhado pelo calor do olhar de Inverno tardio. Ele já sabe as novidades. Descansa na velha calma da aurora e na almofada conselheira de um gesto tardio. Chora!Chora!Chora! Sufoca! Encolhe o olhar ao escorrer da lágrima submersa. Evidente. Penetrante, que flui serpenteada, sem rumo, mas aliviada de sufocar. O quarto de Júpiter podia estar vazio. Mas esta noite está pleno de sentido.

sexta-feira, outubro 14, 2005

-Nobel da Literatura-

O teatro, as opressões (ou a tentativa de libertação), o monólogo, o constrangimento, as relações, a fobia, a claustrofobia, o significado do nada e o nada como significado. Estes são os grandes vencedores do Nobel da Literatura deste ano. Harold Pinter é assim. Não agrada a todos (ainda bem!). Deixa uma marca de fragmentação literária, cunhada pela anormalidade pós-moderna e uma esquizofrenia paliativa. Harold Pinter não é o placebo, é a neurose há muito atrofiada. Parabéns!

sábado, outubro 08, 2005

Estou mais além da solidão constrangida,

Que se perde no rosto do juízo terminal. Sem fé.

Infinitamente só e irreal.

Estou para além das querelas fingidas.

Do jeito fugidio da lobrigada investida da crença.

São vozes que se perdem cá dentro,

No recesso manietado da intempérie das palavras.

Fundem-se em querelas vorazes, sujeitas à inflectida

Cadeira judicial do tempo inflexível.

Imperdoável ao desleixo tardio, pueril e esquecido.

Não interessa. Deixa-se para além da mais crua certeza fingida.

Da realidade que não sente. Não sabe, não conhece.

Como se esquece! Como se retira da vida com o sonho.

Com a indemnização tardia de um sopro de pensamento que outrora superava.

Meretriz voz que o arranca à raiz insaciável, altiva, soberba!

Casta lividez! Como se o manto que enrola a pele tivesse algo de novo!

Fluência! Parte soprada pelos ares vencidos, tolhidos pela imensa estupidez.

Quando dobo os queixumes sei que estou mais além.

Para lá do isolamento brutal da insipidez. Sentes?

@ copyright Vanessa Rodrigues

sexta-feira, outubro 07, 2005

-Os delfins foragidos-

Há foragidos de guerra, do país, da polícia. Estes são foragidos de consciência, de dignidade, de bom senso. Mais: são delfins porque esquecem tudo que aprendem, permanecendo num constante estado de letargia, de estupidez contagiante, acrítica, lassa, pardacenta. Eles vivem no terreno virgem de ideias, profícuo em exercícios de reverberação; iniciados permanentes na sensibilidade e no limite da honra.
Toda a cidade, todas as ruas, todos os lugares são um vazio preenchido por balofos cartazes políticos de nada (passo a redundância: política já é nada) - desperdício de dinheiro, má gestão pecuniária; estupidez latente.
São estes delfins foragidos de si próprios, órfãos eternos do que podiam ter sido; privados do resto, tudo e nada.

segunda-feira, outubro 03, 2005

-Fabricadores de Sentimentos-

Ele perdeu-se em caminhos de encanto, rendido ao espaço exíguo do amor, instruído de ânsias e desejos por saciar.
Enaltecido, deixou-se emaranhar no novelo fugidio (volátil, incerto, inseguro, voraz, silencioso) do murmúrio aflito do segundo passado (com medo de o agarrar).
Dessa vez sorveu, lânguidamente, a melancolia submersa da nuvem passageira (que transportava a carga simbólica do suspiro).
E agora por que sussurram os homens, se a neve deixou de ter a frieza natural, para se apresentar como uma vontade dos fabricadores do clima?
Ele anseia pela mutação sincera de um outro elemento, na forma sensível dos afectos. Ele anseia que os fabricadores de sentimentos surjam com urgência para que não tenha de sofrer as intempéries da condição humana.

quinta-feira, setembro 29, 2005

-"Propaganda silenciosa?"-

Por esta altura já todos devem saber. Já todos devem ter reparado. Se não logo durante a manhã de ontem, foram obrigados a isso durante o dia. Os jornais diários portugueses (gratuitos e pagos) foram manchados de azul. O papel vestiu-se de tudo menos de jornal. Recusei-me a comprá-lo.
Recusei-me a pactuar com a vampirismo da publicidade. Recusei-me a alinhar com a degradação da informação que é cada vez mais publicitária e troco de uma publicidade que é cada vez mais informação.
Esta intoxicação (des)informativa, este esbater de barreiras entre o legítimo e o ilegítimo; esta mescla de símbolos, ícones e violências simbólicas que nos afastam cada vez mais do que é real, para se converter em propaganda vulgarizada; é corrupta (mas, infelizmente, consensual).
O mercado já não compra o nosso olhar, a nossa atenção: impõe-se de tal forma espontânea e gratuita que as nossas defesas, as nossas alternativas quedam, declinam ao limite da desumanização. Hão-de perceber porquê!

quarta-feira, setembro 28, 2005

Fera casta, amansada pelos ventos agrestes de choros soçobrados. Cria sincera, jubilosa de vida e encantada pelo doce enamoramento do primeiro sopro, até ao derradeiro suspiro.

segunda-feira, setembro 26, 2005

O céu quebrou-se em pranto agressivo, desejoso de ventos supremos que pudessem limpar as águas escorreitas que desciam sobre o abismo da Terra. Esqueceu-se das frentes quentes, que limpam, num ápice, os desejos serenos.

terça-feira, setembro 20, 2005

[Silêncio Infinito III]

Se o sangue dos ditos escorrer exangue de maldição,
Augura-se solidão perpétua conforme os ditames da esquálida voz que sai dos seus olhos.
É humano.
Deífico.
Talvez celeste, angelical;
Diáfano de gestos e sereno no respirar depois da vingança.
Delicioso prato frio que o sangue derramado acompanha.

sexta-feira, setembro 16, 2005

[Silêncio do Infinito II]

No silêncio da causa absoluta há um virulento, mordaz acicate que corrói as clemências do sonho. E por muito que se teime em sonhar, a pausa delonga a sorvida aspiração para a entregar ao cárcere da suspensão. Talvez uma não-vida sem espécie de retorno.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Morrem as vontades desleixadas, voltadas ao impropério da ignorância e à injustiça das indemnizações da alma.

terça-feira, setembro 13, 2005

[O silêncio do Infinito I]

São ventos dobrados das ternas madrugadas
Que repousam nas áureas asas do infinito;
E retorquem ao vento as frinchas da sorte,
num silêncio absoluto de serenas confissões.

É aí. Bem alto. Na alta esfera do pensamento que a lassidão se perde.
É justo ao clemente sinal da devassidão mortífera que ele se solta, numa anátema escondida para prender a morte.

sexta-feira, setembro 09, 2005


[Duas torres/Tróia]: palavras compostas por imposição, legitimidade da qualidade do que é medíocre; implosão, festa, circo mediático, náusea, política cada vez mais degradante, cenário estupidificante.


- "in dicionário da vida portuguesa, 2005 ª edição revista e piorada"-


quarta-feira, setembro 07, 2005

O senhor Júlio fechou a mercearia mais cedo.
O Juca deixou a Gigi no shopping com o aviso habitual: "Vai lá 'mor. Vê se não gastas muito dinheiro. Volto daqui a duas horas".'
A dona Cândida acabou as lides da sala mais cedo, porque dentro de minutos aquele espaço transformar-se-ia num santuário de homens, frente ao santo televisor.
O André faltou à aula de música, à aula de natação e foi-lhe desculpado não pôr a mesa. "Vá! Por hoje passa".
A Celeste recebeu beijos apressados. O namorado hoje não abusou da sorte. Não lhe pôs a mão nas pernas a pedir mais qualquer coisinha.
O Garcia fingiu uma enxaqueca forte, para poder sair mais cedo do trabalho (mais tarde viria a saber que os colegas foram dispensados para sair meia hora antes). Afinal era o santo futebol. Era a Selecção. Há que ter tolerância.
Pois é! Só é pena que Portugal não páre. Não se indigne. Não refute os resultados com os árbitros da política- da gestão do país, do rumo desnorteado- quando o tema é a calamidade dos incêndios. Nessa altura, Portugal vive a vidinha pacata. Não se exalta. Pena é que o mais importante não páre o país, por um minuto que seja.

terça-feira, setembro 06, 2005

Atrofio a segurança da incertza e a insensibilidade da injustiça. Passo bem as escolhas sensatas. Hoje ninguém me disse que o silêncio do mundo não é a ausência de som, mas a hiprocrisia e a cegueira colectiva. Pensei-o!

domingo, setembro 04, 2005

Ele bem lhe disse que a certeza do olhar era um abismo infundado por que respiram os loucos, em noites vadias de álcool e visões obtusas do universo do amor.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Durmo nas calhas perdidas sacadas pelo tempo. Nos murmúrios venturosas das margens do rio. Na quietude perdida do ferro oxidado, justificado pela degradação e a justeza de um aperto de mãos. Durmo escondido no túnel da memória. No atrofio fugidio de uma balada mal ouvida, esquecida (talvez ansiosa de uma pauta musical, onde a clave passe a ser a de Sol e não a da Lua sombria). Durmo refugiado no teu abraço distante, na quimera saliente que o sonho acolhe no bolso da esperança. Durmo estendido, entregue à forma do relógio incessante, saboreado pela passagem recordada que as mãos abafam para suster o grito.

terça-feira, agosto 30, 2005

[Conversa do tempo]

Hoje está sol. Chuva, nevoeiro, frio, vento, brisa agreste, agradável. Eu gosto assim. Ás vezes não. Outras vezes assim, assim. Mas tem de ser! Resume-se à existência. Vida leviana, como o tempo. Instável, inseguro e propenso a doenças. Constipações. Acthim!Cof, cof! Alguém tem um lenço?...de papel. É que hoje está encoberto e não dá para grandes aventuras com o vestuário. Mas mais que o acaso, particularidade meteorológica, o tempo é conversa de circunstância. É o tema mais abordado, recalcado, falado, esmiuçado quando não se tem conversa. Quebra o gelo, literalmente! Acende a temperatura de um diálogo esmorecido, onde o silêncio pode ser mais do que constrangedor- intimidador. (Talvez nunca mais se volte a falar com essa pessoa de circunstância onde o tempo foi a tábua de salvação)... O tempo é disciplina nacional. Tema milenar talvez. Será que na Antiga Grécia ele merecia horas de destaque no fórum? Hoje bate os recordes de conversa evocada. Falta, pois, uma tese sobre as condições da atmosfera e a influência nas conversas humanas...

sexta-feira, agosto 26, 2005

-Para esquecer-

Não esqueci a virtude do encantamento e a certeza da areia tardia que rasa os pés dançantes. Não esqueci o fervoroso véu da melodia que salpica o silêncio e se faz belo num pinheiral ventoso (há magia?). Não esqueci a calma do mar quando envolve as gotas restantes de uma vaga envolvente, salgada. Inebriada de sal e vaidade. Quero, sim, esquecer as solicitações de um mundo exterior, degradado, envelhecido e maturado pela filosofia da estupidez e o passadiço fulguroso da massificação. Quero, sim, sem dúvida alguma, esquecer - não lembrar- que este país parco em ideias, embriagado de injustiças, estonteante de ânsia de nada, existe. E por muito mais que se critique, avise, alerte, aponte o dedo: a cegueira colectiva, inoperante, assiste ao desaparecer de um Portugal verdejante. Sim, quero esquecer. Cansei-me de lembrar!

terça-feira, agosto 16, 2005

Diz-se que as verdades são balelas dos fragmentos sociais que ousamos reconhecer como parte integrante de um contexto. Eu digo que as verdades são certezas infundadas, puras opiniões. Pontos de vista irredutíveis que podem não ser a minha realidade; apenas elementos baseados em factos verídicos.

-O fim do luar-

Ele roubou-lhe um olhar furtivo quando a lua se preparava para brilhar de esguelha, por entre as estrelas celestes, teimosas, insinuantes e convencidas de plena beleza. Só que se esqueceu de lhe dizer. Não falou do amor, determinado na certeza da intuição. Ignorou o facto de ela, teimosamente, vaguear sozinha por entre as baladas sombrias do luar sem aviso, nem tino que se sugira. E agora ela queda-se assim, tristemente, sentada na berma de um passeio sem brilho, nem reflexo fugidio que possa contar à lua o mal de que padece. Reza a lenda que foi o fim do luar. O término secreto de um mito vazio.

domingo, agosto 14, 2005

-Conto de outrora-

O Garcia chegou da rua com cara de caso. Nem o cigarro apagara e sujava agora a carpete envelhecida com a última cinza que caía da beata. Ao fundo da casa, a mulher berrava de desespero porque o forno avariara, novamente, e o rosbife nem sequer começara a gratinar. Também já não havia gás e aquele jantar estava na iminência de ter como prato principal uma discussão entre marido e mulher.
Rezingão, cabisbaixo e desalentado o Garcia disse, quase em surdina, que já tinha chegado a casa. Mas o tom de voz, nada audível, não chegara ao conhecimento da mulher que ficou toda a noite à espera de um marido que já estava em casa. O Garcia, esse, adormeceu no quarto degradado sem jantar. A mulher, a tal, saiu para casa da mãe, onde passou a noite em penitência por um casamento que nunca dera certo.

quinta-feira, agosto 11, 2005

O luto florestal

Não aprendemos nada! A verdade é que o ser humano sofre de uma terrível incapacidade de coordenação de prioridades e de uma lacuna cabal de actuar com eficiência. Ou melhor será dizer: os portugueses sofrem desse estúpido defeito que põe em causa a biodiversidade, a qualidade do ar, a vida dos outros. Tudo! As florestas estão cobertas de um luto interminável. Ardidas. Esquecidas. Dezenas de pessoas estão sem casa. E agora, ao fim de décadas cientes do mal de que padece o país, o Governo fala em plano nacional de emergência para prevenir e combater os incêndios. (Vem tarde e inconvenientemente!)
Custa-me pensar e constatar que só depois do roubo do fogo é que os portugueses resolvem comprar as fechaduras necessárias para travar esta desgraça. Não digo mais vale tarde que nunca porque esse argumento é inadmissível. Como é possível que nada tenha sido feito? Como é possível que ao fim de cinco anos o panorama das políticas de actuação relativas aos fogos não tenha mudado? Sim, esta estupidez calamitosa, funesta, podia ter sido evitada. Não venham com balelas e exercícios de retórica. Não me convencem de que era inevitável as florestas vestirem-se de luto este Verão. Afinal de que vale avisar? De que vale perder tempo com a diversão das cadeiras dançantes da política nacional? Meus senhores façam-me o favor de serem eficientes e, mais que isso, responsáveis pela situação actual. De que vale escrever cartas ao Governo? Advertir? A mim não me valeu de nada. Demito-me da participação política para expressar o meu desejo, mas apenas a minha consternação pelo egoísmo vigente.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Mediocridade#1

Na televisão já nada me espanta. Raras são as vezes em que a ligo. Quando ela já está ligada em minha casa, às vezes sou obrigada, por escassos segundos, a interpretar as imagens que chegam até mim. A verdade é que, ou não tenho muita sorte com as emissões, ou já não há oportunidade que valha a pena dar à caixa que mudou o mundo (pela negativa).
Hoje foi assim: O ecrã mostrava a SIC Radical. Sim, aquele canal alternativo! Mas está visto que alternativo nunca foi sinónimo de pedagógico. Confesso que ainda aguentei - entre uma tarefa e outra no computador - uns dois minutos de emissão em directo de um programa do canal. O que aprendi? Parece que realmente não era para se aprender nada. (Talvez desaprender, inversamente!) Esses dois minutos foram gastos com os apresentadores a simularem um enxerto de porrada aos "cameramen" da emissão. A acompanhar, um som característico de onamatopeias de desenhos animados simulava as investidas de murros, pontapés, beliscões, etc. E assim passaram dois minutos de emissão ininterrupta de mediocridade. Potenciem-se outras cenas assim, multipliquem-se as dezenas de programas do género e temos mais que Portugal sentado a assistir a isto. Temos Portugal hipnotizado pelos pontos mágicos das ideologias ocas.

segunda-feira, agosto 08, 2005

Sabes que o silêncio é um tenaz companheiro do sonho que trespassa a memória? Pudera a voz calar a ausência de som com um simples sopro de impaciência, para que o justo pecador se prostrasse diante do altar com a malícia do erro.
Se o olhar espalhasse a verdade e se o fervilhar do corpo denunciasse a brandura que os gestos perdidos ensaiam ao entardecer, e tu não poderias sequer ousar responder com o silêncio. A sombra não delata. Os passos não caminham para justificar o pedido da mente em esquecer o caminho que trilharam. Ontem o manso caminhar dos dedos pelo teu corpo saliente, recolheram o travo amargado da doce impaciência do amanhecer. Talvez quisessem falar de silêncio numa língua paulatina que só o corpo compreende.




















Praga, Setembro de 2004
@ fotografia Vanessa Rodrigues

domingo, agosto 07, 2005

-A invasão dos bichos-

Primeiro foi um sapo verde que nos invadiu para falar de Internet e rapidez. Depois foram as inúmeras figuras fofas nipónicas, vestidas ao sabor do arco-íris., que povoaram o cenário publicitário por uns tempos (pois é, já ninguém se lembra)! Agora é aquele anúncio nojento para falar de cabelos oleosos, secos e por aí fora.
Os bichinhos fofos, nojentos, insinuantes povoam o espectro social da mesma forma como respiramos, andamos, dormimos. Fazem parte da onda "cool" e conquistaram o dia-a-dia de quem usa as ferramentas de Internet, novas tecnologias, publicidade.
Há um outro bicho nos "outdoors" da cidade: um outro sapo, com uma mescla transfigurada de ET para anunciar um cd qualquer. Há também um browser com o ícone de uma raposa; e uma infinidade de outras possibilidades que fazem deste quotidiano uma rede "zoológica" para tentar perceber, afinal, em que mundo é que vivemos! Que bicho seremos nós neste turbilhão?

sexta-feira, agosto 05, 2005

[País Assim?]

Ninguém percebe que ou agimos agora ou não restará um único espaço verde, uma única floresta, ar respirável, recursos hídricos, ambiente sustentado (já nem nem digo sustentável neste curto prazo) e disponível, renovação de ar, ciclo de vida animal, alimentos saudáveis, higiene? Será que ninguém percebe que ao ritmo que ardem as florestas não restará nada? Será que ninguém percebe que tudo está afectado se não agirmos agora? Os problemas respiratórios estão em ascensão. O ar está saturado e o oxigénio escasseia. Estamos a assitir a tudo isto com a passividade desleixada ao ler as manchetes nos jornais, ao ver as imagens na TV, ao ouvir as notícias da rádio e as baboseiras dos políticos e outros representantes que perdem tempo com a dança das cadeiras mediáticas. Urge fazer alguma coisa! O combate e prevenção de incêndios tem de ser uma das prioridades nacionais. Agora!

quinta-feira, agosto 04, 2005

-Finalmente Metro-

Trinta e cinco minutos é o tempo que o Metro me poupou. A baixa do Porto está agora a vinte minutos de distância de minha casa e não há dúvida que o nível é outro. Cessaram as filas de autocarro, a confusão e empurrões, o trânsito, a poluição do autocarro, as dores de cabeça pela mulher que reclama um lugar para se sentar, porque os jovens isto e aquilo e no tempo de Salazar é que era tudo muito bonito. Evitam-se outras balelas do género. Evitam-se os solavancos das ruas. Será que estamos a ficar mais civilizados? (Não isto não acredito, mas que a ponderação de quem viaja de metro é mais serena do que quem viaja de autocarro, isso é verdade!) Em cinco minutos a Senhora da Hora avista-se, quando no passado meia hora era o tempo médio. Lemos mais, passeamos mais, poluímos menos. A verdade é só uma e a que posso enfatizar é : "Finalmente Metro".

terça-feira, agosto 02, 2005

-Tributo pel"O Comércio do Porto"

É estranho e ao mesmo tempo um sinal desta sofreguidão competitiva e desmazelo pelos valores de um grande jornal de índole regional. É impossível que termine, assim, de repente. Uma empresa quando está para rodar a fechadura derradeira não expele de uma vez por todas os funcionários. É uma decisão paulatina. Com despedimentos vagarosos, que indiciem uma crise anunciada. Há anos que os rumores falavam de uma crise. Mas, foi tudo muito rápido. Está a ser tudo demasiado "limpo" e a cumprir um "pro forma" que não existe em Portugal. Não existe em lado nenhum!
O Comércio é um jornal peculiar, como todos os grandes jornais. Para além dos excelentes profissionais que tem é uma grande escola de jornalismo e onde se aprende a domar algumas feras. Ele é especial. Incisivo. Tem uma particularidade de equipa que a maior parte das redacções já esqueceram: a reunião diária de agenda, de jornalistas.
Aqui aprendi muito e ensaiei os primeiros passos para um amor que se revelou cedo difícil. Mas mesmo assim não desalentei com os sacrifícios, as horas a mais a trabalhar, os muitos serviços que me marcavam para além das voltas para os casos do dia (ali leva-se mesmo a sério esta informação!). Aprendi que afinal teria de engolir muitos sapos (para toda a vida, mas sem nunca expressar o sapo que me entalava). Passei por aquela casa durante cinco meses. Muito trabalho. Muita aprendizagem! Foi alucinante! Foi bom! Passei as minhas férias de Verão a ir à polícia, a sair em reportagem, a propor trabalhos! No final, fiquei com uma nostalgia incrível e com a certeza de que a imprensa tinha outro sabor.
Saboreei a antiga redacção, onde a agenda era um cubículo bem ao fundo da sala e o sol inundava os "macintosh" multicolores. Foi no Comércio que a minha base se fundou. Onde aprendi mais para ter a bagagem que hoje tenho. Onde sedimentei raízes para hoje colher e continuar a aprender. Foi lá que percebi o que era fazer manchete! Foi lá que escrevi sobre tudo!
Todas as redacções têm um cheiro especial e a do Comércio cheira a fresco, a mudança mas ao mesmo tempo a força, a coragem. Estou triste, contudo simultaneamente desejosa de que todos aqueles que fazem o Comércio não desalentem e continuem a dar cartas do excelente profissionalismo!Quero voltar a vê-lo nas bancas, nos quiosques, onde desde Domingo há um vazio por preencher!

segunda-feira, agosto 01, 2005

(Porta de Babel)

Império justificado pelo mito da palavra. Pelo fervor da fantasia como Atalanta perdura nos ecos de estórias não contadas, sonhadas, encenadas na nossa mente, expectantes por um momento que desencadeie o sonho. Eu anseio por uma porta de Babel. Por uma entrada que me leve para além do presente sabor a realidade e me carregue pelas frinchas para outro lado. Que me transporte pelas fendas frescas do tempo e me quede numa quimera de sol de semblante mais que luzidio: apaziguador. Anseio pela chave dessa porta; anseio por quem cinzele o ferro giratório de formas indefinidas que ama a fechadura da passagem para outro corredor. Talvez por encanto, a Porta de Babel se deixe seduzir. Se deslumbre, encantada, com a macieza do toque majestoso dessa chave impremeditada.